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Frida e as crianças

   Fotos: Divulgação

Fotos: Divulgação

Dividida em seis eixos temáticos, a exposição Frida e Eu segue no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro até 2 de outubro. Para falar de autorretrato, família, dor, Diego, natureza e Paris, "momentos ou aspectos importantes da vida da artista mexicana", a mostra apresenta diversas possibilidades de interação. "São experiências que vão muito além do tocar, apertar, montar e se surpreender", conta Daniela Kohl Schlochauer, da Bacuri Cultural, responsável por trazer "Frida e Eu" para o Brasil.

Pedagoga de formação, especialista em crianças de 0 a 3 anos e em gestão de Recursos Humanos, foi depois do nascimento de seus filhos que Daniela teve certeza de que queria conciliar um trabalho ao seu interesse genuíno de ver os filhos crescerem bem. Aos poucos, foi formando a equipe da Bacuri Cultural, produtora que nasce agora e conta com oito profissionais de diferentes formações e atividades, mas com um mesmo interesse. "São pessoas que igualmente se apaixonaram pelo projeto e que viram nele uma possibilidade de oferecer um repertório maior para as crianças, além de proporcionar essa interação tao essencial entre as crianças e adultos", disse ao Estúdio Voador, na entrevista que segue abaixo.

Estúdio Voador: De que forma as crianças podem interagir com as obras?

Daniela Kohl Schlochauer: O objetivo é fazer com que a criança "se sinta Frida” e faça correlações com sua própria vida. Que experimente algumas situações que foram marcantes para a artista, como por exemplo o acidente que a deixou presa à uma cama e, desta forma, provocou o início de sua carreira como pintora. Presa à cama, ela começou a pintar. As crianças poderão deitar em uma cama, se olhar num espelho e fazer um autorretrato. Em uma outra estação, as crianças poderão escolher um cenário e usar objetos para compor este cenário tal como a artista fazia e tirar uma foto.

 

Como falar de Frida para as crianças?

Isso foi um dos pontos primordiais que me deixaram encantada quando a exposição pela primeira vez, no Centro Pompidou de Paris: falar de uma artista que tem uma história densa, cheia de episódios marcados pelo sofrimento e pela dor, de uma maneira leve e lúdica e sem maquiar ou esconder os fatos. E conseguir fazer isso de forma sutil e delicada.

É isso que a exposição proporciona. Não tem o objetivo de fazer com que as crianças se tornem “experts” após a  visita, mas sim de aproximar e atrair a criança ao espaço do museu, usando pra isso uma artista importante, conhecida e que transformou sofrimento em oportunidade. Frida é conhecida em todo o mundo como modelo de superação e sua história nos cativa até os dias de hoje.

Alguma obra em particular costuma chamar a atenção? Qual e por quê?

A exposição Frida e Eu não contém acervo. Ela traz reproduções dos lugares e paisagens que a artista costumava frequentar e viver. "O Jardim", por exemplo, é uma instalação sonora em que a criança pode deitar e sentir como se estivesse no jardim da Casa Azul (casa onde Frida morou). A idéia é que ela feche os olhos e se deixe levar pelos sons que vão aguçar sua imaginação.

A que mais me chama a atenção é a própria Casa Azul, onde os visitantes podem tirar fotos e sentir como se estivesse dentro de uma obra - um efeito bastante interessante e que tem agradado não somente as crianças. Como disse, o objetivo é aguçar as percepções, a curiosidade e a imaginação, além de divertir.

Bebês também são bem-vindos?

Sim. Também um dos principais propósitos da exposição é provocar essa interação entre pais, adultos e crianças - o que temos observado acontecer com bastante intensidade, já nos primeiros dia da exposição. Bebês vão precisar de um pouco mais de suporte dos pais, obviamente, mas são muito bem-vindos!

Originalmente, a exposição foi concebida pensando em crianças de 5 a 10 anos, mas costumamos dizer que na prática ela está destinada a uma faixa bem maior: 0 a 99 anos. 

Em 2017, a expo seguirá por São Paulo. Para saber mais, não deixe de seguir a página da Bacuri Cultural no Facebook. Agendamento de grupos também já podem ser feitos por email: agendamentofrida@bacuricultural.com.br

Parece comigo: bonecas negras contra o racismo

 Carolina Monteiro, que tem mais de 500 mil visualizações em seu canal no YouTube, onde compartilha como construir "uma infância saudável e uma autoestima sólida" -  Foto: divulgação

Carolina Monteiro, que tem mais de 500 mil visualizações em seu canal no YouTube, onde compartilha como construir "uma infância saudável e uma autoestima sólida" - Foto: divulgação

Já entrou em uma loja de brinquedos e reparou como a oferta de bonecas negras é rara ou até mesmo inexistente? 

Mesmo sabendo ser essencial que as crianças brinquem com algo que reflita quem elas são, o mercado (de brinquedos e outros) ainda patina no que diz respeito à representatividade. Por outro lado, artistas muito conscientes batalham para oferecer esses objetos.

Focado principalmente no trabalho de artesãs que produzem bonecas negras em São Paulo, o documentário Parece Comigo, de Kelly Cristina Spinelli, será lançado em breve e então exibido pela TV Brasil.

Conversamos com Kelly para saber mais sobre o filme e os caminhos desse tema tão importante.

ESTÚDIO VOADOR: Parece comigo traz para a tela um tema muito importante, que é a representatividade. Como uma boneca ajuda a fortalecer a identidade de uma criança negra?

KELLY CRISTINA SPINELLI: As crianças negras; aliás, as mulheres negras em geral, não são bem representadas. Nem em filmes, nem em séries, nem nas ilustrações de livros infantis, nem nas bonecas... É difícil pra qualquer criança ter uma boa autoestima, se achar bonita, se achar boa, se ela cresce vendo modelos de beleza, de riqueza, de bondade que não são parecidos com ela.

A questão das bonecas é particularmente preocupante porque as meninas usam a boneca para se representar, dentro de casa, desde muito pequenas. Como diz uma das nossas entrevistadas, a psicóloga Clélia Prestes, é com elas que muitas meninas brincam de serem adultas. As meninas negras estão brincando de serem adultas, em sua maioria, com bonecas brancas. Eu pergunto como elas podem fortalecer sua identidade assim? Isso é um problema muito sério.

E é um problema também que as meninas brancas não estejam brincando com bonecas negras. Obviamente isso não afeta a autoestima delas, que estão em uma posição de poder e vantagem na sociedade, que não sofrem com o racismo, mas afeta a sua visão de mundo. Elas não vão enxergar o mundo plural onde vivemos, não vão aprender a conviver com as diferenças, se crescerem só com bonecas brancas, só com modelos brancos de beleza e bondade.

Que histórias serão contadas no documentário e como isso pode ajudar no combate ao racismo na infância?

O documentário é principalmente focado no trabalho das bonequeiras, que são artesãs muito conscientes, que batalham para produzir bonecas negras e atingir o máximo possível de mercado. O filme tem histórias muito tocantes sobre essas bonequeiras, o esforço delas, o primeiro contato delas com bonecas negras.

Além disso falamos com a Preta Rara, uma rapper maravilhosa que também toca nesse assunto em suas músicas [abaixo, com Negra Jack], e com algumas crianças negras que têm bonecas negras. A ideia é dar voz para essas mulheres, para a luta que elas estão travando diariamente, divulgar o trabalho delas, conscientizar quem assistir.

 

MC Soffia é uma das personagens de Parece Comigo. Você pode dividir com a gente alguma fala ou depoimento dela no documentário?

O que pouca gente sabe sobre a MC Soffia é que ela é neta de uma grande bonequeira e ativista da cidade, a Lucia Makena. Então a Soffia teve contato com bonecas negras desde pequena e ela é a prova viva de como isso faz diferença (no filme isso fica muito transparente). Ela também canta e fala um pouco da sua experiência com as bonecas e de quando sofreu racismo na escola.

 MC Soffia: hip hop e empoderamento das meninas negras -  Foto: divulgação

MC Soffia: hip hop e empoderamento das meninas negras - Foto: divulgação

Que outros personagens são apresentados em Parece Comigo? Há outras crianças, como MC Soffia?

Sim! A Carolina Monteiro, uma menina maravilhosa e já famosa no YouTube, que é de Minas Gerais, também está no filme. Assim como a Soffia, ela também é uma criança que já cresceu rodeada de boas referências negras, que a mãe dela, Patricia, faz questão de levar pra casa. A Carolina topou vir pra São Paulo passear por uma loja de brinquedos e dar sua opinião sobre o que ela encontrava lá.

A pesquisa para o filme foi feita em alguma cidade ou Estado brasileiro, ou você percorreu o País para contar essa história?

A pesquisa começou na cidade de São Paulo, e a ideia inicial era focar somente nas bonequeiras daqui, até pra poder viabilizar o projeto financeiramente. Mas no decorrer da produção acabamos trazendo para o documentário também a Lena Martins, criadora da boneca Abayomi, uma boneca que é muito ensinada em oficinas pelo país inteiro. 

Apesar de a falta de bonecas negras ser generalizada no país, o documentário segue algumas bonequeiras aqui de São Paulo e a Lena. Não tive contato com a produção de outras bonequeiras de outros Estados. Mas seria maravilhoso conseguir estender o tema pelo país.

O que mais chamou a sua atenção sobre o assunto enquanto pesquisava e organizava as entrevistas?

Eu acho que a primeira coisa que chama a atenção é justamente a falta de bonecas negras. Eu sou branca, eu nunca sofri preconceito racial. Um belo dia encontrei a Ana Fulô, que vende suas bonecas na Avenida Paulista, e conversei com ela sobre isso.  Depois fui a uma loja de brinquedos e fiquei revoltadíssima. Muitas pessoas que tiveram contato com o tema têm essa primeira mesma reação: “nossa eu nunca tinha pensado sobre isso”. Então, em um primeiro momento, é impactante ver que questões relacionadas à infância muitas vezes passam despercebidas. Justo as questões relacionadas à infância!!! Como nós vamos ter gerações melhores no futuro se a gente não presta atenção nas crianças?

O meu curta anterior, A Festa da Joana, que aliás foi meu primeiro curta, já tinha a ver com a infância. É uma ficção sobre uma menina que quer fazer uma festa considerada de menino e sofre preconceito. Então antes disso eu também já estava questionando essa questão de brinquedos de menina x brinquedos de menino – nesse caso um problema que me afetou pessoalmente quando criança. Eu e as lojas de brinquedos temos uma relação problemática há tempos [risos].

Mais adiante no desenvolvimento do filme, apareceram histórias tristes demais, de meninas que, na tentativa de se adequarem aos padrões de beleza, tentam clarear a pele, se machucam usando produtos químicos ou outras formas de tentarem ficar “mais brancas”. Essa é uma reação física e autodestrutiva ao preconceito, à falta de representatividade. Uma das nossas personagens conta uma história assim no documentário.

Quem hoje são os produtores de bonecas negras que vale destacarmos aqui? E onde adquirir as bonecas?

A Ana Fulô, que vende aos domingos na Avenida Paulista, e em outras feiras na cidade, a Andrea Ramos, das bonecas Nega Fulô, a Lucia Makena, que também vende em feiras e eventos as bonecas Makena, a Preta Pretinha, que já é bem conhecida e consolidada, é uma loja na Vila Madalena. Fora isso, vira e mexe você encontra oficinas de Abayomi na cidade. Aliás, colocamos uma lista com contatos na página do filme no Facebook e está sendo legal ver ela crescer, já incluímos duas ou três novas bonequeiras do Rio que entraram em contato com a gente, tomara que apareçam mais.

 Ana Fulô, que  há mais de 15 anos começou a fazer as bonecas com objetivo de elevar a autoestima das crianças negras -  Foto: divulgação

Ana Fulô, que há mais de 15 anos começou a fazer as bonecas com objetivo de elevar a autoestima das crianças negras - Foto: divulgação

Ainda sobre fabricação, como o grande mercado de brinquedos tem olhado para esse tema?

Olha, eu tenho visto uma certa movimentação positiva, por exemplo, parece que a Barbie vai lançar uma linha de bonecas com vários tipos de corpo e cor de pele.  Quem sabe a indústria vai acordando aos poucos pra essa questão. Mas a verdade é que, ainda, nem 10% das bonecas são negras, pelo menos no mercado brasileiro. A revista TPM tinha feito uma pesquisa sobre isso em 2014, e continua atual. 

Parece comigo está dirigido a crianças, educadores, mediadores ou famílias?

É um documentário que fala de infância, mas não é infantil. Ele é especialmente dirigido a educadores. Acho que pode ser útil para discutir esse tema inclusive em sala de aula, e famílias.

Está previsto para ser lançado quando e onde?

O projeto foi financiado pela Fundação Joaquim Nabuco, depois de ganhar o concurso de roteiros Rucker Vieira. É parte do edital que ele seja exibido pela TV Brasil, em breve, mas ainda não temos data certa.

Além disso, ele está sendo inscrito em diversos festivais nacionais e pelo mundo, esperamos que ele rode bastante até o final do ano/começo do ano que vem. Passada essa janela dos festivais, que é a época em que ele ainda precisa ficar inédito, pretendemos fazer com que ele chegue às escolas. 

Alguma agenda de conversas com o público está prevista durante o lançamento?

Ainda não, estamos bem no começo desse processo de divulgação, mas ele é um filme pra ser discutido! Então a ideia é fazer todas as conversas possíveis, de preferência incluindo as bonequeiras. São elas as especialistas.

Like Real Girls | Naturalmente bonitas

Tree Change Dolls is the creation of Tasmanian artist Sonia Singh. Sonia recycles, repairs and upcycles forgotten and discarded dolls. They are given a new down-to-earth style and are soon ready for outdoor adventures!

Like Cool Mum Picks wrote, "What can we say — this is an artist after our own hearts. Sonja Singh is taking upcycled Bratz dolls, removing the provocative clothes and makeup, and turning them into the kinds of girls we’d rather our kids emulate. Have your kids take a look at them; who knows, maybe it will inspire the next generation of toymakers creating dolls that parents actually like as much as their children do."

The story itself is amazing. Rescued and rehabilitated from op-shops and tip shops around Tasmania, the dolls leave the high-fashion habits behind for a down-to-earth style. Sonia hand repaints the dolls faces, molds new feet or shoes, and her mum sews and knits their clothing.

Passionate about dolls, the idea came up after she lost her job as a science communicator, following a series of Australian government funding cuts to science research in September 2014. Soon the new "job" attracted attention and went viral, as you can see in the video below.

Please follow her on Facebook and enjoy her Etsy shop!

 

 

De olhinhos no papel | FaceMaker

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[english version below]

Dmitry (Deems) Kopytin, artista russo que vive em Moscou, faz maravilhas em seu projeto Faceheads. Um passeio pelo site dele traz ideias geniais - desenhadas, escritas, animadas e dubladas por ele.

Um dos projetos que mais gosto é o FaceMaker, uma exercício divertido capaz de fazer com que a gente enxergue tudo por um ângulo diferente. Basta desenhar várias linhas de forma abstrata e depois, com a ajuda de uma lâmina transparente e dois olhinhos, passear pelo papel e descobrir uma série de personagens. Espia só, logo abaixo, o "tutorial" em vídeo.

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Meet Dmitry (Deems) Kopytin, a russian artist based in Moscow who creates great stuff in his project: Faceheads. My favorite one is FaceMaker, as you can see in this cool tutorial where he shows how it is possible to see hundreds of faces with a sheet os paper, two little eyes and, of course, imagination.

Se der tempo, me manda uma carta

Nos conhecemos este ano num desses corredores de feira internacional de livros. Puxamos assunto e ele deixou comigo um caderno/portfólio, impresso e costurado à mão. Achei tão delicado e quis saber mais sobre o trabalho dele. Um, em especial, chamou minha atenção.

Em agosto de 2010, o ilustrador Kammal saiu de viagem, sozinho, pelas regiões centro-oeste, norte e nordeste do Brasil. Foram seis meses e mais de 150 cartas ilustradas enviadas para o irmão de 8 anos. “Eu já havia passado outros seis meses pesquisando artistas viajantes, haikais e afins. Quando voltei, finalizei o projeto, montei um livro-objeto e o defendi como tese de graduação em design gráfico na PUC-Rio”, disse.

 Vi algumas imagens ali na hora e tinha, além do pouco tempo, uma série de perguntas pra fazer. Achei fascinante acompanhar suas impressões, principalmente sabendo que estava ali uma “conversa” entre irmãos.

Voltei pra minha casa, em Londres, e ele pra dele, no Rio de Janeiro, até que resolvi enviar um email perguntando se ele topava me dar uma entrevista por carta. Ele se animou, e eu passei a contar os dias só imaginando essas informações atravessando o Atlântico, passando pelas mãos de tanta gente até chegar a mim. Vocês não imaginam minha alegria quando o envelope apareceu debaixo da porta. Pra melhorar, Kammal foi tão generoso que transformou as perguntas em arte – em três folhas de histórias, agora compartilhadas aqui.

O Tempo Sem Tempo, que será publicado este ano pela Bolha Editora, é um livro que compila as cartas de Kammal ao irmão e nos devolve as emoções do artista através de seu registro, lindo e experimental, pelo Brasil.