educação

Crianças colocam Reggio Emilia no (contra) mapa

Publicado originalmente no Blog da Letrinhas, por Roberto Almeida - co-fundador do Estúdio Voador

Abri as cortinas do nono andar e, tchanam, ela não estava lá.

Reggio Emilia dormia sob um nevoeiro tão espesso que só se via torres das igrejas, prédios quadrados, antenas de televisão. Não foi assim o sorriso mais simpático que já recebi de uma cidade, Reggio Emilia. Sem falar no frio e no sol apagado. Você me acabrunhou.

Gosto muito de pensar nessas primeiras impressões como uma espécie de primeiro mapeamento da cidade. Em um instante particular, tentamos capturar essências e dar sentido à urbanidade à nossa volta, compará-la às cidades que conhecemos e às imagens idealizadas que criamos.

Eu, por exemplo, esperava sol, cores e vibração. Ou Reggio Emilia não é a cidade das crianças, da experimentação educacional de Loris Malaguzzi, da liberdade e dos direitos humanos? Encontrei nevoeiro, cinza e silêncio. Nas caminhadas com meu filho de oito meses, o parquinho vazio, praticamente nenhuma criança nas ruas. Uma sensação de latência pela chegada do outono.

Obviamente, Reggio Emilia é muito mais que uma bruma modorrenta, vai além de um parque vazio. A cidade do norte da Itália, com um bonitinho centro histórico fechado a carros, tem seus quase 200 mil moradores, muitas ciclovias e um projeto piloto de interculturalidade da Comissão Europeia que prima por políticas de integração de imigrantes e refugiados.

É verdade que ela caminha a passos lentos, cozinha em fogo brando. Mas está em movimento. Por isso, insisti que debaixo do nevoeiro deveriam coexistir outras cartografias possíveis, bem além dos guias turísticos e do meu olhar cansado da mesma arquitetura, das mesmas lojas das mesmas grifes de sempre iluminando as ruas estreitas.

Então, por acaso, em visita à livraria do Centro Internazionale Loris Malaguzzi, conheci o livro Reggio Tutta – A guide to the city by the children (Toda Reggio – Um guia para a cidade pelas crianças, em tradução livre) – um mapeamento de Reggio Emilia feito pelas crianças que vivem na cidade, com desenhos, impressões e descrições espontâneas, divertidas e inteligentes.

 

O livro era tudo o que eu precisava para ver Reggio Emilia com outros olhos. Melhor ainda: com olhos de criança. A obra, publicada em 2000, é fruto de um projeto de pesquisa da Fondazione Reggio Children Loris Malaguzzi chamado The City: Images, Ideas, and Theories (A Cidade: Imagens, Ideias e Teorias, em tradução livre), feito com alunos das famosas creches e pré-escolas da cidade, baseadas na abordagem Reggio Emilia de arte e educação.

Ao ler o livro e absorver a cartografia das crianças, lembrei de uma apresentação que assisti em 2012 em Londres, no Goldsmiths College, sobre a noção de contramapeamento.

Contramapear, segundo David Martin, professor de política internacional e visual da Goldsmiths, é descolonizar nosso conhecimento para produzir novas representações do espaço que rompam com sistemas de poder. A apresentação em Londres, que incluía um projeto de pesquisa em Dubai, é uma boa ilustração do que isso quer dizer.

Pesquisadores caminharam por toda Dubai (o que é proibido em vários pontos) para poder conversar com imigrantes, “invisíveis” entre estradas, pontes e viadutos, mar e deserto. Sem carro, eles eram obrigados a descobrir atalhos entre as muretas e driblar as autoridades para encontrar trabalho. Por isso, eles tinham suas próprias cartografias de Dubai, muito diferentes das que se vê em um mapa comum e da imagem “luxuosa” da cidade, vendida pela propaganda oficial.

Reggio Emilia está, naturalmente, muito longe de ser Dubai, mas o livro Reggio Tutta é também um contramapeamento da cidade, uma reconfiguração do espaço público pelo ponto de vista das crianças. Ao sobrepor a cartografia delas com a minha, que andava meio perdida, ficou bem claro que me faltava a força criativa para transformar o espaço público no que eu quisesse.

Em pouco tempo, as leituras que eu estava fazendo sobre Reggio Emilia mudaram de foco. De uma cidade média, longe de ser impressionante, ela passou a ter outras representações. Os leões de mármore em frente à Basílica de S.Próspero, por exemplo, foram feitos para quê, senão para as crianças brincarem? E as praças, com seus pombos e feiras livres, como verdadeiros parquinhos?

Assim que comecei a poetizar com ajuda das crianças as funções de ruas, prédios e esculturas de Reggio Emilia, as janelas das casas me fizeram imaginar outras vidas. Aliás, no livro, a divisão entre espaço privado e público é borrada. As mesas de jantar fazem parte de Reggio Emilia tanto quanto a praça principal e a feira livre. O alimento no prato é parte da paisagem tanto quanto os presuntos e enormes rodas de queijos dos armazéns e empórios.

Foi como uma revelação. O nevoeiro levantou e as ruas estreitas ganharam outros sentidos.

Questionar a autoridade é responsabilidade de cada cidadão

Imagens: A Rule Is To Break: A Child's Guide to Anarchy / Reprodução

Imagens: A Rule Is To Break: A Child's Guide to Anarchy / Reprodução

Se tem uma coisa que deveria ser garantida a todas as crianças, além dos direitos básicos, é a certeza de que estão sendo formadas para serem livres, críticas e questionadoras, sem rótulos sobre o que a sociedade considera normal ou aceitável.

Foi pensando nisso que trouxe para o blog do Estúdio Voador um livro genial que conheci há alguns anos: A Rule Is To Break: A Child's Guide to Anarchy (em tradução livre, Uma regra é para ser quebrada - Guia anárquico para crianças), publicado pela Manic D Press.

Nele, os autores John e Jana incentivam crianças e pais a abraçar a anarquia como parte dos valores da família. A ideia surgiu em 2011 da própria frustração do casal a partir do que presenciavam no mundo, e também por estarem cansados de livros com finais moralistas.

Foi ainda observando seus próprios filhos que viram ser preciso questionar as regras já na infância. Dessa forma, abriram um canal para que eles pudessem se expressar e, com responsabilidade, fazer escolhas que os transformassem em pessoas respeitosas e muito conscientes de seus papéis na sociedade em que vivem.

Quebrar regras, para eles, era permitir e até incentivar que os filhos pulassem um banho, trocassem um dia na pré-escola por um passeio na praia ou até mesmo subissem mais alto na árvore.

E é sobre isso que o livro trata. Com personagens doces e divertidos, frases curtas e ilustrações bem coloridas retratam um ambiente ideal onde é permitido viver de forma mais livre, leve, confiante e colaborativa. Nada conservadora. Bem menos oprimida pelo consumo e só.

"Eu prefiro um mundo cheio de crianças que questionam por que elas precisam fazer alguma coisa a um mundo em que elas simplesmente obedecem tudo o que a escola ou os pais dizem. Afinal, ensinar os filhos a quebrar as regras não significa criar filhos pouco educados e que pensam que podem fazer o que quiserem sem nunca enfrentar consequências. Tratar desse tema significa criar filhos que pensam sobre o que está sendo dito para que possam se perguntar se e como aquilo se aplica a eles", disse o casal (em tradução livre) ao site Rocker.

Para os autores, a anarquia nada mais é do que uma porção de ideias viáveis sobre um mundo sem perseguição, feito de respeito mútuo, cooperação e tolerância com as diferenças.

Hoje, em um momento em que vemos uma camada da sociedade bater o pé e chamar de opinião aquilo que é preconceito - e aqui estou falando de pais que ensinam aos filhos que homossexualidade é doença, que a crença do outro é menor, que o feminismo é uma piada, que agora nem se pode mais fazer humor ou ter empregada doméstica, e que ajudas sociais são para preguiçosos, só para citar algumas tristezas -  nada melhor do que projetos informativos, diversificados, criativos e inspiradores para nos tirar do lugar e fazer com que a gente enxergue o mundo por outras lentes.

Eduque-se! Use seu cérebro (e seu coração).