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Frida e as crianças

   Fotos: Divulgação

Fotos: Divulgação

Dividida em seis eixos temáticos, a exposição Frida e Eu segue no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro até 2 de outubro. Para falar de autorretrato, família, dor, Diego, natureza e Paris, "momentos ou aspectos importantes da vida da artista mexicana", a mostra apresenta diversas possibilidades de interação. "São experiências que vão muito além do tocar, apertar, montar e se surpreender", conta Daniela Kohl Schlochauer, da Bacuri Cultural, responsável por trazer "Frida e Eu" para o Brasil.

Pedagoga de formação, especialista em crianças de 0 a 3 anos e em gestão de Recursos Humanos, foi depois do nascimento de seus filhos que Daniela teve certeza de que queria conciliar um trabalho ao seu interesse genuíno de ver os filhos crescerem bem. Aos poucos, foi formando a equipe da Bacuri Cultural, produtora que nasce agora e conta com oito profissionais de diferentes formações e atividades, mas com um mesmo interesse. "São pessoas que igualmente se apaixonaram pelo projeto e que viram nele uma possibilidade de oferecer um repertório maior para as crianças, além de proporcionar essa interação tao essencial entre as crianças e adultos", disse ao Estúdio Voador, na entrevista que segue abaixo.

Estúdio Voador: De que forma as crianças podem interagir com as obras?

Daniela Kohl Schlochauer: O objetivo é fazer com que a criança "se sinta Frida” e faça correlações com sua própria vida. Que experimente algumas situações que foram marcantes para a artista, como por exemplo o acidente que a deixou presa à uma cama e, desta forma, provocou o início de sua carreira como pintora. Presa à cama, ela começou a pintar. As crianças poderão deitar em uma cama, se olhar num espelho e fazer um autorretrato. Em uma outra estação, as crianças poderão escolher um cenário e usar objetos para compor este cenário tal como a artista fazia e tirar uma foto.

 

Como falar de Frida para as crianças?

Isso foi um dos pontos primordiais que me deixaram encantada quando a exposição pela primeira vez, no Centro Pompidou de Paris: falar de uma artista que tem uma história densa, cheia de episódios marcados pelo sofrimento e pela dor, de uma maneira leve e lúdica e sem maquiar ou esconder os fatos. E conseguir fazer isso de forma sutil e delicada.

É isso que a exposição proporciona. Não tem o objetivo de fazer com que as crianças se tornem “experts” após a  visita, mas sim de aproximar e atrair a criança ao espaço do museu, usando pra isso uma artista importante, conhecida e que transformou sofrimento em oportunidade. Frida é conhecida em todo o mundo como modelo de superação e sua história nos cativa até os dias de hoje.

Alguma obra em particular costuma chamar a atenção? Qual e por quê?

A exposição Frida e Eu não contém acervo. Ela traz reproduções dos lugares e paisagens que a artista costumava frequentar e viver. "O Jardim", por exemplo, é uma instalação sonora em que a criança pode deitar e sentir como se estivesse no jardim da Casa Azul (casa onde Frida morou). A idéia é que ela feche os olhos e se deixe levar pelos sons que vão aguçar sua imaginação.

A que mais me chama a atenção é a própria Casa Azul, onde os visitantes podem tirar fotos e sentir como se estivesse dentro de uma obra - um efeito bastante interessante e que tem agradado não somente as crianças. Como disse, o objetivo é aguçar as percepções, a curiosidade e a imaginação, além de divertir.

Bebês também são bem-vindos?

Sim. Também um dos principais propósitos da exposição é provocar essa interação entre pais, adultos e crianças - o que temos observado acontecer com bastante intensidade, já nos primeiros dia da exposição. Bebês vão precisar de um pouco mais de suporte dos pais, obviamente, mas são muito bem-vindos!

Originalmente, a exposição foi concebida pensando em crianças de 5 a 10 anos, mas costumamos dizer que na prática ela está destinada a uma faixa bem maior: 0 a 99 anos. 

Em 2017, a expo seguirá por São Paulo. Para saber mais, não deixe de seguir a página da Bacuri Cultural no Facebook. Agendamento de grupos também já podem ser feitos por email: agendamentofrida@bacuricultural.com.br

Parece comigo: bonecas negras contra o racismo

 Carolina Monteiro, que tem mais de 500 mil visualizações em seu canal no YouTube, onde compartilha como construir "uma infância saudável e uma autoestima sólida" -  Foto: divulgação

Carolina Monteiro, que tem mais de 500 mil visualizações em seu canal no YouTube, onde compartilha como construir "uma infância saudável e uma autoestima sólida" - Foto: divulgação

Já entrou em uma loja de brinquedos e reparou como a oferta de bonecas negras é rara ou até mesmo inexistente? 

Mesmo sabendo ser essencial que as crianças brinquem com algo que reflita quem elas são, o mercado (de brinquedos e outros) ainda patina no que diz respeito à representatividade. Por outro lado, artistas muito conscientes batalham para oferecer esses objetos.

Focado principalmente no trabalho de artesãs que produzem bonecas negras em São Paulo, o documentário Parece Comigo, de Kelly Cristina Spinelli, será lançado em breve e então exibido pela TV Brasil.

Conversamos com Kelly para saber mais sobre o filme e os caminhos desse tema tão importante.

ESTÚDIO VOADOR: Parece comigo traz para a tela um tema muito importante, que é a representatividade. Como uma boneca ajuda a fortalecer a identidade de uma criança negra?

KELLY CRISTINA SPINELLI: As crianças negras; aliás, as mulheres negras em geral, não são bem representadas. Nem em filmes, nem em séries, nem nas ilustrações de livros infantis, nem nas bonecas... É difícil pra qualquer criança ter uma boa autoestima, se achar bonita, se achar boa, se ela cresce vendo modelos de beleza, de riqueza, de bondade que não são parecidos com ela.

A questão das bonecas é particularmente preocupante porque as meninas usam a boneca para se representar, dentro de casa, desde muito pequenas. Como diz uma das nossas entrevistadas, a psicóloga Clélia Prestes, é com elas que muitas meninas brincam de serem adultas. As meninas negras estão brincando de serem adultas, em sua maioria, com bonecas brancas. Eu pergunto como elas podem fortalecer sua identidade assim? Isso é um problema muito sério.

E é um problema também que as meninas brancas não estejam brincando com bonecas negras. Obviamente isso não afeta a autoestima delas, que estão em uma posição de poder e vantagem na sociedade, que não sofrem com o racismo, mas afeta a sua visão de mundo. Elas não vão enxergar o mundo plural onde vivemos, não vão aprender a conviver com as diferenças, se crescerem só com bonecas brancas, só com modelos brancos de beleza e bondade.

Que histórias serão contadas no documentário e como isso pode ajudar no combate ao racismo na infância?

O documentário é principalmente focado no trabalho das bonequeiras, que são artesãs muito conscientes, que batalham para produzir bonecas negras e atingir o máximo possível de mercado. O filme tem histórias muito tocantes sobre essas bonequeiras, o esforço delas, o primeiro contato delas com bonecas negras.

Além disso falamos com a Preta Rara, uma rapper maravilhosa que também toca nesse assunto em suas músicas [abaixo, com Negra Jack], e com algumas crianças negras que têm bonecas negras. A ideia é dar voz para essas mulheres, para a luta que elas estão travando diariamente, divulgar o trabalho delas, conscientizar quem assistir.

 

MC Soffia é uma das personagens de Parece Comigo. Você pode dividir com a gente alguma fala ou depoimento dela no documentário?

O que pouca gente sabe sobre a MC Soffia é que ela é neta de uma grande bonequeira e ativista da cidade, a Lucia Makena. Então a Soffia teve contato com bonecas negras desde pequena e ela é a prova viva de como isso faz diferença (no filme isso fica muito transparente). Ela também canta e fala um pouco da sua experiência com as bonecas e de quando sofreu racismo na escola.

 MC Soffia: hip hop e empoderamento das meninas negras -  Foto: divulgação

MC Soffia: hip hop e empoderamento das meninas negras - Foto: divulgação

Que outros personagens são apresentados em Parece Comigo? Há outras crianças, como MC Soffia?

Sim! A Carolina Monteiro, uma menina maravilhosa e já famosa no YouTube, que é de Minas Gerais, também está no filme. Assim como a Soffia, ela também é uma criança que já cresceu rodeada de boas referências negras, que a mãe dela, Patricia, faz questão de levar pra casa. A Carolina topou vir pra São Paulo passear por uma loja de brinquedos e dar sua opinião sobre o que ela encontrava lá.

A pesquisa para o filme foi feita em alguma cidade ou Estado brasileiro, ou você percorreu o País para contar essa história?

A pesquisa começou na cidade de São Paulo, e a ideia inicial era focar somente nas bonequeiras daqui, até pra poder viabilizar o projeto financeiramente. Mas no decorrer da produção acabamos trazendo para o documentário também a Lena Martins, criadora da boneca Abayomi, uma boneca que é muito ensinada em oficinas pelo país inteiro. 

Apesar de a falta de bonecas negras ser generalizada no país, o documentário segue algumas bonequeiras aqui de São Paulo e a Lena. Não tive contato com a produção de outras bonequeiras de outros Estados. Mas seria maravilhoso conseguir estender o tema pelo país.

O que mais chamou a sua atenção sobre o assunto enquanto pesquisava e organizava as entrevistas?

Eu acho que a primeira coisa que chama a atenção é justamente a falta de bonecas negras. Eu sou branca, eu nunca sofri preconceito racial. Um belo dia encontrei a Ana Fulô, que vende suas bonecas na Avenida Paulista, e conversei com ela sobre isso.  Depois fui a uma loja de brinquedos e fiquei revoltadíssima. Muitas pessoas que tiveram contato com o tema têm essa primeira mesma reação: “nossa eu nunca tinha pensado sobre isso”. Então, em um primeiro momento, é impactante ver que questões relacionadas à infância muitas vezes passam despercebidas. Justo as questões relacionadas à infância!!! Como nós vamos ter gerações melhores no futuro se a gente não presta atenção nas crianças?

O meu curta anterior, A Festa da Joana, que aliás foi meu primeiro curta, já tinha a ver com a infância. É uma ficção sobre uma menina que quer fazer uma festa considerada de menino e sofre preconceito. Então antes disso eu também já estava questionando essa questão de brinquedos de menina x brinquedos de menino – nesse caso um problema que me afetou pessoalmente quando criança. Eu e as lojas de brinquedos temos uma relação problemática há tempos [risos].

Mais adiante no desenvolvimento do filme, apareceram histórias tristes demais, de meninas que, na tentativa de se adequarem aos padrões de beleza, tentam clarear a pele, se machucam usando produtos químicos ou outras formas de tentarem ficar “mais brancas”. Essa é uma reação física e autodestrutiva ao preconceito, à falta de representatividade. Uma das nossas personagens conta uma história assim no documentário.

Quem hoje são os produtores de bonecas negras que vale destacarmos aqui? E onde adquirir as bonecas?

A Ana Fulô, que vende aos domingos na Avenida Paulista, e em outras feiras na cidade, a Andrea Ramos, das bonecas Nega Fulô, a Lucia Makena, que também vende em feiras e eventos as bonecas Makena, a Preta Pretinha, que já é bem conhecida e consolidada, é uma loja na Vila Madalena. Fora isso, vira e mexe você encontra oficinas de Abayomi na cidade. Aliás, colocamos uma lista com contatos na página do filme no Facebook e está sendo legal ver ela crescer, já incluímos duas ou três novas bonequeiras do Rio que entraram em contato com a gente, tomara que apareçam mais.

 Ana Fulô, que  há mais de 15 anos começou a fazer as bonecas com objetivo de elevar a autoestima das crianças negras -  Foto: divulgação

Ana Fulô, que há mais de 15 anos começou a fazer as bonecas com objetivo de elevar a autoestima das crianças negras - Foto: divulgação

Ainda sobre fabricação, como o grande mercado de brinquedos tem olhado para esse tema?

Olha, eu tenho visto uma certa movimentação positiva, por exemplo, parece que a Barbie vai lançar uma linha de bonecas com vários tipos de corpo e cor de pele.  Quem sabe a indústria vai acordando aos poucos pra essa questão. Mas a verdade é que, ainda, nem 10% das bonecas são negras, pelo menos no mercado brasileiro. A revista TPM tinha feito uma pesquisa sobre isso em 2014, e continua atual. 

Parece comigo está dirigido a crianças, educadores, mediadores ou famílias?

É um documentário que fala de infância, mas não é infantil. Ele é especialmente dirigido a educadores. Acho que pode ser útil para discutir esse tema inclusive em sala de aula, e famílias.

Está previsto para ser lançado quando e onde?

O projeto foi financiado pela Fundação Joaquim Nabuco, depois de ganhar o concurso de roteiros Rucker Vieira. É parte do edital que ele seja exibido pela TV Brasil, em breve, mas ainda não temos data certa.

Além disso, ele está sendo inscrito em diversos festivais nacionais e pelo mundo, esperamos que ele rode bastante até o final do ano/começo do ano que vem. Passada essa janela dos festivais, que é a época em que ele ainda precisa ficar inédito, pretendemos fazer com que ele chegue às escolas. 

Alguma agenda de conversas com o público está prevista durante o lançamento?

Ainda não, estamos bem no começo desse processo de divulgação, mas ele é um filme pra ser discutido! Então a ideia é fazer todas as conversas possíveis, de preferência incluindo as bonequeiras. São elas as especialistas.

Clube de Pequenos Inventores

 Fotos: colônia de férias realizada em julho de 2015, que contou com a parceria de Adoro Robótica, O Formigueiro, Mob Content.  Crédito das imagens: André Hawk

Fotos: colônia de férias realizada em julho de 2015, que contou com a parceria de Adoro Robótica, O Formigueiro, Mob Content. Crédito das imagens: André Hawk

Começou hoje no Instituto Europeu de Design (IED), no Rio de Janeiro, a segunda colônia de férias do Clube de Pequenos Inventores. Durante cinco dias, crianças de 8 a 12 anos colocarão a mão na massa para explorar o potencial das novas tecnologias.

O projeto, que teve início em julho de 2015 (como você pode ver nas fotos e no vídeo a seguir), foi idealizado pelo Olabi Makerspace - espaço que vem se configurando cada vez mais como um grande centro de trocas, inspiração e inovação.

Para saber mais sobre o Clube e os caminhos das crianças no mundo maker, batemos um papo com Gabi Agustini, uma das empreendedoras do Olabi Makerspace, desenvolvedora de Novos Negócios, consultora de Inovação e professora na Fundação Getúlio Vargas (FGV Rio) e na Universidade Cândido Mendes. 

Estúdio Voador: Conta pra gente um pouco mais sobre o que será feito na prática, já que as crianças são supercuriosas e portanto capazes de enxergar e propor diversas soluções cotidianas?

Gabi Agustini: Durante cinco dias, as crianças ficarão imersas em um universo da criatividade que mistura impressoras 3D, componentes robóticos, eletrônicos, computadores com artesanato, corte e costura, pintar, colar, cortar e uma série de componentes simples e conhecidos. Nosso foco é incentivar que elas conheçam e se apropriem dessas novas tecnologias de maneira lúdica, a partir da curiosidade própria de cada uma.

Todo o programa é focado em construção de projeto e no "aprender fazendo", assim elas podem testar, errar e ficar curiosas sobre como funciona um circuito eletrônico, como podem resolver um determinado problema com esses materiais etc. Serão as crianças que vão decidir e criar projetos que fazem sentido nas suas realidades e a partir disso usar os materiais disponíveis. 

O que normalmente elas trazem para o Clube? E o que levam dele?

Elas trazem para o clube um conhecimento enorme de como as coisas funcionam, uma grande curiosidade e criatividade. Do clube, levam aprendizados sobre equipamentos, componentes, aparelhos, técnicas que muitas vezes só conhecem pela TV ou pela internet, além de amizades que se fazem ali, risadas e momentos divertidos.

Gostamos de fazer tudo de maneira bem leve, respeitando o tempo e as férias dos pequenos. Na última edição da colônia, um de nossos monitores tocava violão boa parte do tempo e em uma das turmas muitas das crianças eram fãs dos Beatles e adoravam cantar "Yellow Submarine" em conjunto, enquanto pintavam, desenhavam, projetavam uma maquete. 

Fundada por ex-alunos do MIT, a MobGeek vai trazer este ano para o Rio de Janeiro cursos de programação de games para adolescentes entre 14 e 17 anos. A Garagem FabLab, em São Paulo, também oferece uma gama de cursos ou oficinas que abordam impressão 3D e robôs articulados, por exemplo. Que outros espaços, dentro do mundo da programação, promovem às crianças essas oportunidades de criar, colaborar e testar ideias?  Você tem uma listinha de exemplos e projetos no Brasil e em outros países pra dividir com a gente?

O LabHacker, em São Paulo, também tem feito coisas legais com crianças, assim como a Experimentoria, o FabLab Brasilia, a galera do Kids Hack Day Brasil e tantos outros grupos que não param de crescer e se multiplicar pelo país. Recentemente fizemos junto ao pessoal do Observatório de Favelas e do Bela Labe, no Rio, o Gambiarrinha Favela Tech, que também foi um sucesso. Fora do país, algumas iniciativas interessantes: Laboratório de Juguete na Argentina, o MakerKids no Canadá,  o KidsHackerCamp no Kenya, o Tynker Summer Camp nos EUA, os projetos do Technology Will Save Us, de Londres. 

O cientista Ennio Candotti tem uma frase que eu gosto muito. Ele diz assim: "Um cientista é uma criança para a vida toda. Ele preserva a curiosidade de um garoto e o dia que ele perder esta curiosidade viva, ele se torna um adulto e acaba o cientista. Ele vira um especialista que sabe uma porção de coisas, mas perde o encanto do novo, perde o 'ver o mundo' de um ponto de vista diferente."  Você acha que ela se encaixa também nessa nova cultura criativa, ao falarmos de todos esses laboratórios que vêm sendo construídos, unindo pessoas, ideias e tecnologia?

Com certeza. O que estamos procurando é incentivar a curiosidade e o pensamento "fora da caixa", que é próprio das crianças, mas que nem sempre a escola e os ambientes tradicionais de aprendizagens dão espaço. Nossa proposta é incentivar a livre descoberta, a experimentação e a imaginação.

Após esse contato exploratório, a criança poder buscar entender e estruturar quais conhecimentos estão por trás daquilo. Respeitamos muito o conhecimento que as crianças têm e, por isso, oferecemos espaço para que elas possam dar vazão a isso. 

Em uma matéria publicada recentemente por Blake Montgomery, surge a seguinte pergunta: os "hardware toys" são o futuro da programação para crianças? O que você acha disso? 

A gente tem usado muito por aqui o MakeyMakey e o littleBits. O Olabi é, inclusive, o primeiro embaixador no Brasil do littleBits e adoramos as possibilidades que esses módulos nos trazem. Temos alguns outros como Roominate e Makeblock, que vamos usar bastante nesta edição da colônia, e achamos sempre válido lidar com essas aplicações. Mas procuramos usá-las de forma a ser um complemento, já que nem sempre é fácil e acessível para a criança ter isso em casa e cada "brinquedo" desse tem seus limites.

Sem dúvida, é muito mais atrativo trabalhar com essas aplicações do que apenas com os softwares no computador, porque são mais dinâmicas e permitem interação com o mundo físico.

Na Colônia de Férias do Olabi que rolou em julho, por exemplo, trabalhamos em cima de uma maquete, na qual as crianças automatizaram alguns pontos da maquete com littlebits e arduinos, num processo em que esses componentes estavam ao lado de isopor, cola, tesoura, tinta, papel, objetos impressos na impressora 3D. Todos fazendo parte de um mesmo insumo de materiais que serviam como ferramenta para construir um mundo inventado por eles.

Aos que se interessam mais por programação, é claro que em algum momento vai se exigir uma dedicação maior no computador, então os "hardware toys" acabam servindo muito como uma porta de entrada, em um processo de sensibilização para o aprendizado. 


 
O título da matéria citada me fez pensar no pessoal do Makey Makey e suas invenções baseadas na ideia de que através da criação de kits "easy-to-use", todo mundo pode usar a imaginação e mudar alguma coisa ao redor. Em seus produtos, fica claro a importância da diversão para entender como as coisas acontecem e, a partir disso, quem sabe gerar uma curiosidade maior em relação às diferentes áreas da tecnologia. Da mesma forma, com empresas como codeSpark, StoryToys, Montessorium, Kidaptive e Pixowl, todas aceleradas pela co.lab, não podemos dizer que o poder dos games digitais não vem sendo usado para construir tecnologias educacionais transformadoras. A pergunta é: transformar as experiências tecnológicas com as crianças em uma grande brincadeira é um caminho comum que você nota nesse meio?

Sim, com certeza. E acho que isso vale para os adultos também. Entender que aprendemos muito enquanto estamos brincando e experimentando é um pouco essência do mundo maker. Tem muita potência na livre interação e na pura possibilidade de testar algo novo. Acreditamos que isso estimula muito a criatividade e dá vazão às mais diversas formas de pensar. E, nesse sentido, esses "brinquedos" são super úteis aos adultos também, porque ajuda a estimular outras maneiras de lidar com o conhecimento. 

No Colégio Nery Lacerda, em Sobradinho (DF), alunos do sexto e sétimo anos agora aprendem História com o Minecraft. A ouvir e topar a sugestão, a escola promoveu um novo cenário de aprendizagem e mobilização, e os alunos se transformaram em engenheiros virtuais, além de co-autores interessados no tema. Como você enxerga essas inovações?

Acho fundamental que professores e escolas entendam que os jogos e inovações digitais podem ser aliados no processo de construção do conhecimento. Quantas vezes já não ouvimos a história de que as crianças e jovens não aprendem, não querem saber de nada, são incapazes e só querem saber de jogar videogame? E aí, ao analisar o que elas fazem no videogame, é comum ver que a garota ou o garoto entende aquela ferramenta em minutos, desvenda toda a sua lógica, zera o jogo, contrói uma porção de coisas e é capaz de resultados incríveis dentro daquela plataforma.

Será então que o problema é dessas crianças e jovens ou do modelo de ensino que não dialoga com eles?

Quando a gente se propõe a aprender com os mais novos e não só a ensiná-los, uma porção de coisas legais pode acontecer. E acho que o é isso que o aluno de Sobradinho mostrou para o país nesse projeto, assim como os estudantes que tomaram as escolas em São Paulo com uma série de atividades com caráter ultra formativo. Temos muito o que aprender com todos eles. 

Apesar do caso citado acima, que faz parte do projeto Eu Sou Criativo, sabemos que há uma resistência ou falta de domínio por parte de muitos colégios em relação ao uso da tecnologia. Como podemos trazer os profissionais de educação para este mundo? O que está sendo feito ou é possível fazer para inseri-los nessa troca e ampliar assim não apenas o conhecimento dessa cultura, mas a prática em sala de aula?

Na minha opinião, a escola (e todo o sistema educacional) precisa se abrir mais para outras formas de pensar que essas novas gerações trazem. Isso exige sair do campo das respostas prontas e se propor a estimular novas perguntas. Exige também entender que não são só os com mais experiências que podem ensinar, os mais jovens tem um conhecimento muito rico para passar.

É preciso também perder o preconceito com as novas tecnologias, o digital e tachar de perda de tempo todas essas horas focadas nos jogos, redes sociais e afins porque existe uma potência muito grande nessas novas formas de linguagem e uma forma muito própria dessas novas gerações.

Ainda estamos tentando descobrir como podemos trazer os profissionais de educação para este universo, mas nos parece que criando projetos que inspirem uma forma de educação mais horizontal - mão na massa e conectada ao modo de pensar das crianças e dos jovens - pode ser um bom caminho.

Tenho visto muitos projetos dedicados a fazer esta ponte. A Fundação Lemann, por exemplo, tem estimulado isso e acho que é um campo que só tende a crescer. Aqui no Rio temos alguns colégios bastante abertos a essas novas formas de pensar, e estamos animados em nos aproximar cada vez mais e colaborar com a educação como um todo.  

Ana Paula Campos, pesquisadora de projetos de criatividade e ciência com e para crianças, trabalha com a gente no Estúdio Voador e nos apresentou ao Aquatopia, uma instalação que resultou de um processo de pesquisa feito com profissionais de diferentes áreas e crianças austríacas, a partir da ideia inicial de unir arte e ciência para falar de água e desperdício.

Esse é só um dos exemplos incríveis em que podemos notar que o mundo da criação não está mais dividido como antes. Hoje, se quisermos inovar, temos de ter vários olhares, experiências e repertórios para sermos capazes de misturar áreas de conhecimentos, idades e ideias. Você acredita que a tecnologia, de alguma forma, é responsável por essa dinâmica? E como as crianças, que estão participando dessas iniciativas de uma forma muito diferentes de quem era criança há 30 anos, por exemplo, sente e aproveita isso?  

Acredito muito. Acho que é exatamente esta a ideia por trás de um espaço de fazer como o nosso, de um makerspace: o de tirar as caixinhas que colocaram nos conhecimentos e mostrar que artes, ciências, matemática e poesia são parte de um mesmo processo. Tem muita filosofia na matemática, muita arte na engenharia e por aí vai. E a tecnologia, por ser transversal, consegue tocar todos esses campos.

Além disso, como é algo muito novo e em construção, ela permite uma possibilidade de criar e inventar muito grande. Ela planifica e horizontaliza na medida que é nova para quase todo mundo. E para além desse lado de estímulo à criatividade, acreditamos que é essencial estimularmos um olhar que essas novas ferramentas fazem parte do mundo contemporâneo e, por isso, é preciso entendê-las, usá-las como ferramenta para se construir o mundo que se deseja.

Tecnologias não são neutras e, se não entendemos como elas operam, ficamos reféns de comportamentos e padrões já pré-definidos, diminuindo assim nossa capacidade de intervenção na sociedade. Por isso, focamos nisso. Por isso, tentamos ampliar o acesso a essas inovações (e entendemos que tecnologias são muito mais amplas do que o universo da computação, da eletrônica e da robótica. Permacultura, artesanato, marcenaria estão também no nosso escopo "tecnológico").

Para as crianças de hoje, isso é muito natural, pois o ambiente das tecnologias está dado. Elas se divertem muito e têm muito interesse, da mesma forma que as crianças de 30 anos atrás tinham muito interesse por tudo o que estava disponível no mundo naquele momento. Mudam as ferramentas, mas a curiosidade genuína das crianças segue transformando o mundo :-))

Like Real Girls | Naturalmente bonitas

Tree Change Dolls is the creation of Tasmanian artist Sonia Singh. Sonia recycles, repairs and upcycles forgotten and discarded dolls. They are given a new down-to-earth style and are soon ready for outdoor adventures!

Like Cool Mum Picks wrote, "What can we say — this is an artist after our own hearts. Sonja Singh is taking upcycled Bratz dolls, removing the provocative clothes and makeup, and turning them into the kinds of girls we’d rather our kids emulate. Have your kids take a look at them; who knows, maybe it will inspire the next generation of toymakers creating dolls that parents actually like as much as their children do."

The story itself is amazing. Rescued and rehabilitated from op-shops and tip shops around Tasmania, the dolls leave the high-fashion habits behind for a down-to-earth style. Sonia hand repaints the dolls faces, molds new feet or shoes, and her mum sews and knits their clothing.

Passionate about dolls, the idea came up after she lost her job as a science communicator, following a series of Australian government funding cuts to science research in September 2014. Soon the new "job" attracted attention and went viral, as you can see in the video below.

Please follow her on Facebook and enjoy her Etsy shop!

 

 

Encontramos um tesouro: o Museu do Teatro de Bonecos

A cidade de Lübeck, no norte da Alemanha, guarda um tesouro. Em uma rua estreita, à beira do rio Trave, desenrolam-se os fios de centenas de marionetes, expostos como jóias raras de olhos brilhantes, cravados em rostos europeus, africanos e orientais de madeira bem trabalhada. Um deleite.

O Theater Figuren Museum, ou Museu do Teatro de Bonecos, casa das marionetes, está instalado em uma construção histórica com mais de 400 anos. Seus quatro andares e dezenas de salas são fruto do trabalho e da paixão do documentarista alemão Fritz Fey, que a transformou em um lugar mágico.

Viajante e filho de bonequeiros, Fey recolheu marionetes por onde passou. Índia, Turquia, Mali, Nigéria e Casaquistão são só exemplos dos países visitados enquanto trabalhava com uma equipe de TV. Vivia de câmera na mão e olho nos bonecos.

Esse hobby curioso, de colecionar marionetes, logo se transformou em uma coleção particular inigualável. Seu lugar, claro, era um museu divertido para que todos os olhos pudessem ver o que ela tem de tão especial.

Garatujas Fantásticas visitou e fotografou tudo o que pode do Theater Figuren Museum. De quebra, comprovou que a frase do escritor alemão Heinrich von Kleist (1777-1811), adotada como lema do museu, faz bastante sentido: “Somente Deus e as marionetes são perfeitas.”

Vejam que legal!

Para chegar a Lübeck há serviços de trem saindo de Berlim (foi o caminho que fizemos). A viagem leva cerca de duas horas e meia. A cidade é linda muito além do Museu de Teatro de Bonecos, apesar de essa ser uma atração imperdível, e vale muito a visita.

Lübeck já foi capital da Liga Hanseática, comerciantes escandinavos, e tem uma arquitetura muito particular. A cidade antiga é muito bem preservada e ainda reserva boas surpresas, como o museu dedicado ao escritor Thomas Mann, Nobel de Literatura, que nasceu ali. Ou seja, se você marcar uma viagem pela Alemanha, nós recomendamos Lübeck!

Serviço:

Theater Figuren Museum
www.theaterfigurenmuseum.de
Aberto diariamente, há visitas guiadas com bonequeiros para grupos acima de cinco pessoas
Os textos explicativos estão em inglês e alemão
Endereço: Kolk 14, 23552 – Lübeck
Telefone: +49 0 45178626
info@theaterfigurenmuseum.de