Problemas sociais nos livros ilustrados de Roger Mello

Por Camila Castro*

A atuação dos ilustradores brasileiros na literatura infantil tem propiciado aos leitores  de todas as idades diversas experiências estéticas, contribuindo para a educação do olhar e possibilitando diferentes interpretações de mundo. Não é a toa que nomes como o de Roger Mello ultrapassaram as fronteiras e estão fazendo sucesso em outros cantos do mundo. No ano passado, o brasiliense recebeu o Hans Christian Andersen na categoria ilustração, prêmio considerado o Nobel da literatura infantil e juvenil, e montou uma exposição sobre temas recorrentes em sua obra, que viajou pela Alemanha e que também foi exibida no Japão e na Coreia do Sul.

Conhecido por seus livros com temáticas da cultura e da arte popular, com animais e plantas do cerrado, e também por ter representado diferentes personagens do folclore brasileiro, Roger Mello é um artista plural. Por gostar de se expressar de diferentes formas, propõe narrativas visuais únicas, com propostas estéticas variadas, sem seguir um padrão ou uma classificação, característica que rendeu a qualidade de “experimental” à sua obra. Neste caso, a palavra “experimental” deve ser compreendida como “característica daquilo que proporciona experiências significativas”.

Nos livros em que Roger Mello assina como ilustrador e autor, o experimentalismo é encontrado tanto na proposta temática (narrativa verbal) como no exercício plástico-estético (narrativa visual e proposta gráfica). Sobretudo no caso dos livros que falam sobre problemas sociais complexos como morte, solidão, trabalho infantil etc., as ilustrações promovem sensações e sinestesia que ressignificam o tema abordado de modo que o leitor entra em contato com as questões sociais colocadas e, ao mesmo tempo, tem a oportunidade de experimentar aquele universo, sendo convidado, ainda que de forma subjetiva e abstrata, a pensar em empatia, alteridade, direitos humanos e outros mundos possíveis.

PROBLEMAS SOCIAIS NA OBRA DE ROGER MELLO

Um exemplo de livro autoral de Roger Mello que apresenta como temática um problema social e tem proposta estética a possibilidade de experimentação - que por sua vez permite uma ressignificação do tema - é o livro Carvoeirinhos. Publicado em 2009 pela Companhia das Letrinhas, o livro ilustrado de Roger Mello tem como pano de fundo a denúncia do trabalho infantil nas carvoarias.

Crédito das imagens: Divulgação

Crédito das imagens: Divulgação

A história é contada pelo narrador e personagem marimbondo, que relata suas experiências enquanto observa o cotidiano das crianças. O leitor conhece o trabalho árduo de se fazer fornos, a realidade dessas crianças e os medos relacionados à necessidade de se escapar de fiscais e de se manter nesse trabalho.

Publicado em capa dura e em brochura, as ilustrações do livro ocupam página dupla e são imagens expressivas feitas com papeis recortados e amassados, principalmente, nas cores preta e de diferentes tons de cinza, captando o cotidiano duro, desolador, efêmero e cinzento das carvoarias. Para representar o fogo, os papeis utilizados são nas cores laranja, vermelha e rosa choque, fazendo contraste com as outras cores.

Em uma sequência de página dupla, há uma proposta de metáfora visual sinestésica: quando o marimbondo-narrador fala sobe o fogo e de como ele se espalhou rapidamente, Roger Mello propõe uma experiência tátil-visual para o leitor. Os papeis escolhidos para compor a ilustração são mais finos e recortados em forma de labaredas. A escolha de papeis das cores laranja, vermelha e rosa choque aplicados sobre a folha preta causa a sensação de ardência nos olhos e nas mão desse leitor, que é levado pelas palavras a imaginar que se trata realmente de uma “brasa chama fagulha, chama faísca, flama, língua, labareda, incêndio, fogaréu”.

Em outra ilustração, mais uma experiência tátil-visual é proposta ao leitor. A imagem mostra a sala dos caldeirões dos fornos de carvão e a lava saindo de dentro desses caldeirões. Nesse caso, as folhas dessas páginas apresentam uma leve aspereza e a técnica utilizada para pintar a lava, os caldeirões e os fornos faz com que o leitor experimente uma sensação de calor quase insuportável.

Trata-se, portanto, de uma verdadeira obra artístico-social que parte de uma narrativa gráfica-verbo-visual para falar de um problema social complexo com leitores de todas as idades. Especialmente na literatura infantil, é frequente os livros que levam os leitores a uma exaustivas histórias com repetição de padrões, universos e temas que reforçam estereótipos. Entretanto, há autores, ilustradores e ilustradores-autores como Roger Mello que não julgam falar de trabalho infantil impróprio, mas preferem mostrar realidades que façam imaginar e pensar que outro mundo é possível.

Camila Castro trabalha como editora e formadora de mediadores de leitura. Beletrista formada na USP, fez pós em jornalismo pela Cásper Líbero e mestrado em Livros e Literatura Infantil e Juvenil pela Univesitat Autònoma de Barcelona. Apaixonada pelo tema "Literatura infantil e sociedade", decidiu tornar internacional o desejo de falar dos livros infantis nacionais que abordam problemas sociais complexos. Este texto faz parte do trabalho final do máster, intitulado "Os caminhos experimentais dos livros álbuns de Roger Mello".