Parece comigo: bonecas negras contra o racismo

Carolina Monteiro, que tem mais de 500 mil visualizações em seu canal no YouTube, onde compartilha como construir "uma infância saudável e uma autoestima sólida" - Foto: divulgação

Carolina Monteiro, que tem mais de 500 mil visualizações em seu canal no YouTube, onde compartilha como construir "uma infância saudável e uma autoestima sólida" - Foto: divulgação

Já entrou em uma loja de brinquedos e reparou como a oferta de bonecas negras é rara ou até mesmo inexistente? 

Mesmo sabendo ser essencial que as crianças brinquem com algo que reflita quem elas são, o mercado (de brinquedos e outros) ainda patina no que diz respeito à representatividade. Por outro lado, artistas muito conscientes batalham para oferecer esses objetos.

Focado principalmente no trabalho de artesãs que produzem bonecas negras em São Paulo, o documentário Parece Comigo, de Kelly Cristina Spinelli, será lançado em breve e então exibido pela TV Brasil.

Conversamos com Kelly para saber mais sobre o filme e os caminhos desse tema tão importante.

ESTÚDIO VOADOR: Parece comigo traz para a tela um tema muito importante, que é a representatividade. Como uma boneca ajuda a fortalecer a identidade de uma criança negra?

KELLY CRISTINA SPINELLI: As crianças negras; aliás, as mulheres negras em geral, não são bem representadas. Nem em filmes, nem em séries, nem nas ilustrações de livros infantis, nem nas bonecas... É difícil pra qualquer criança ter uma boa autoestima, se achar bonita, se achar boa, se ela cresce vendo modelos de beleza, de riqueza, de bondade que não são parecidos com ela.

A questão das bonecas é particularmente preocupante porque as meninas usam a boneca para se representar, dentro de casa, desde muito pequenas. Como diz uma das nossas entrevistadas, a psicóloga Clélia Prestes, é com elas que muitas meninas brincam de serem adultas. As meninas negras estão brincando de serem adultas, em sua maioria, com bonecas brancas. Eu pergunto como elas podem fortalecer sua identidade assim? Isso é um problema muito sério.

E é um problema também que as meninas brancas não estejam brincando com bonecas negras. Obviamente isso não afeta a autoestima delas, que estão em uma posição de poder e vantagem na sociedade, que não sofrem com o racismo, mas afeta a sua visão de mundo. Elas não vão enxergar o mundo plural onde vivemos, não vão aprender a conviver com as diferenças, se crescerem só com bonecas brancas, só com modelos brancos de beleza e bondade.

Que histórias serão contadas no documentário e como isso pode ajudar no combate ao racismo na infância?

O documentário é principalmente focado no trabalho das bonequeiras, que são artesãs muito conscientes, que batalham para produzir bonecas negras e atingir o máximo possível de mercado. O filme tem histórias muito tocantes sobre essas bonequeiras, o esforço delas, o primeiro contato delas com bonecas negras.

Além disso falamos com a Preta Rara, uma rapper maravilhosa que também toca nesse assunto em suas músicas [abaixo, com Negra Jack], e com algumas crianças negras que têm bonecas negras. A ideia é dar voz para essas mulheres, para a luta que elas estão travando diariamente, divulgar o trabalho delas, conscientizar quem assistir.

 

MC Soffia é uma das personagens de Parece Comigo. Você pode dividir com a gente alguma fala ou depoimento dela no documentário?

O que pouca gente sabe sobre a MC Soffia é que ela é neta de uma grande bonequeira e ativista da cidade, a Lucia Makena. Então a Soffia teve contato com bonecas negras desde pequena e ela é a prova viva de como isso faz diferença (no filme isso fica muito transparente). Ela também canta e fala um pouco da sua experiência com as bonecas e de quando sofreu racismo na escola.

MC Soffia: hip hop e empoderamento das meninas negras - Foto: divulgação

MC Soffia: hip hop e empoderamento das meninas negras - Foto: divulgação

Que outros personagens são apresentados em Parece Comigo? Há outras crianças, como MC Soffia?

Sim! A Carolina Monteiro, uma menina maravilhosa e já famosa no YouTube, que é de Minas Gerais, também está no filme. Assim como a Soffia, ela também é uma criança que já cresceu rodeada de boas referências negras, que a mãe dela, Patricia, faz questão de levar pra casa. A Carolina topou vir pra São Paulo passear por uma loja de brinquedos e dar sua opinião sobre o que ela encontrava lá.

A pesquisa para o filme foi feita em alguma cidade ou Estado brasileiro, ou você percorreu o País para contar essa história?

A pesquisa começou na cidade de São Paulo, e a ideia inicial era focar somente nas bonequeiras daqui, até pra poder viabilizar o projeto financeiramente. Mas no decorrer da produção acabamos trazendo para o documentário também a Lena Martins, criadora da boneca Abayomi, uma boneca que é muito ensinada em oficinas pelo país inteiro. 

Apesar de a falta de bonecas negras ser generalizada no país, o documentário segue algumas bonequeiras aqui de São Paulo e a Lena. Não tive contato com a produção de outras bonequeiras de outros Estados. Mas seria maravilhoso conseguir estender o tema pelo país.

O que mais chamou a sua atenção sobre o assunto enquanto pesquisava e organizava as entrevistas?

Eu acho que a primeira coisa que chama a atenção é justamente a falta de bonecas negras. Eu sou branca, eu nunca sofri preconceito racial. Um belo dia encontrei a Ana Fulô, que vende suas bonecas na Avenida Paulista, e conversei com ela sobre isso.  Depois fui a uma loja de brinquedos e fiquei revoltadíssima. Muitas pessoas que tiveram contato com o tema têm essa primeira mesma reação: “nossa eu nunca tinha pensado sobre isso”. Então, em um primeiro momento, é impactante ver que questões relacionadas à infância muitas vezes passam despercebidas. Justo as questões relacionadas à infância!!! Como nós vamos ter gerações melhores no futuro se a gente não presta atenção nas crianças?

O meu curta anterior, A Festa da Joana, que aliás foi meu primeiro curta, já tinha a ver com a infância. É uma ficção sobre uma menina que quer fazer uma festa considerada de menino e sofre preconceito. Então antes disso eu também já estava questionando essa questão de brinquedos de menina x brinquedos de menino – nesse caso um problema que me afetou pessoalmente quando criança. Eu e as lojas de brinquedos temos uma relação problemática há tempos [risos].

Mais adiante no desenvolvimento do filme, apareceram histórias tristes demais, de meninas que, na tentativa de se adequarem aos padrões de beleza, tentam clarear a pele, se machucam usando produtos químicos ou outras formas de tentarem ficar “mais brancas”. Essa é uma reação física e autodestrutiva ao preconceito, à falta de representatividade. Uma das nossas personagens conta uma história assim no documentário.

Quem hoje são os produtores de bonecas negras que vale destacarmos aqui? E onde adquirir as bonecas?

A Ana Fulô, que vende aos domingos na Avenida Paulista, e em outras feiras na cidade, a Andrea Ramos, das bonecas Nega Fulô, a Lucia Makena, que também vende em feiras e eventos as bonecas Makena, a Preta Pretinha, que já é bem conhecida e consolidada, é uma loja na Vila Madalena. Fora isso, vira e mexe você encontra oficinas de Abayomi na cidade. Aliás, colocamos uma lista com contatos na página do filme no Facebook e está sendo legal ver ela crescer, já incluímos duas ou três novas bonequeiras do Rio que entraram em contato com a gente, tomara que apareçam mais.

Ana Fulô, que há mais de 15 anos começou a fazer as bonecas com objetivo de elevar a autoestima das crianças negras - Foto: divulgação

Ana Fulô, que há mais de 15 anos começou a fazer as bonecas com objetivo de elevar a autoestima das crianças negras - Foto: divulgação

Ainda sobre fabricação, como o grande mercado de brinquedos tem olhado para esse tema?

Olha, eu tenho visto uma certa movimentação positiva, por exemplo, parece que a Barbie vai lançar uma linha de bonecas com vários tipos de corpo e cor de pele.  Quem sabe a indústria vai acordando aos poucos pra essa questão. Mas a verdade é que, ainda, nem 10% das bonecas são negras, pelo menos no mercado brasileiro. A revista TPM tinha feito uma pesquisa sobre isso em 2014, e continua atual. 

Parece comigo está dirigido a crianças, educadores, mediadores ou famílias?

É um documentário que fala de infância, mas não é infantil. Ele é especialmente dirigido a educadores. Acho que pode ser útil para discutir esse tema inclusive em sala de aula, e famílias.

Está previsto para ser lançado quando e onde?

O projeto foi financiado pela Fundação Joaquim Nabuco, depois de ganhar o concurso de roteiros Rucker Vieira. É parte do edital que ele seja exibido pela TV Brasil, em breve, mas ainda não temos data certa.

Além disso, ele está sendo inscrito em diversos festivais nacionais e pelo mundo, esperamos que ele rode bastante até o final do ano/começo do ano que vem. Passada essa janela dos festivais, que é a época em que ele ainda precisa ficar inédito, pretendemos fazer com que ele chegue às escolas. 

Alguma agenda de conversas com o público está prevista durante o lançamento?

Ainda não, estamos bem no começo desse processo de divulgação, mas ele é um filme pra ser discutido! Então a ideia é fazer todas as conversas possíveis, de preferência incluindo as bonequeiras. São elas as especialistas.