uma visita ao mundo fantástico de ATAK

Antes de começar a ler este post, fazemos um outro convite: clique aqui e deixe rolar a playlist criada por ATAK. Você vai entender quando chegar ao final do texto. =]

Arquivo pessoal /Divulgação

Arquivo pessoal /Divulgação

Foi durante uma palestra na Feira de Bolonha, em 2012, que eu conheci o trabalho do artista alemão Georg Barber, aka ATAK. Fiquei fascinada pelo uso das cores, o traço forte, a presença de vários elementos da cultura pop e seu super humor. 

De lá pra cá, comecei a pesquisar mais sobre ele e sua influência tremenda na cena artística alemã. Além de trabalhar em vários suportes - quadrinhos, esculturas, pinturas e álbuns - e ser mestre em contar histórias com imagens, ATAK acumula referências e é da turma que, influenciada pela RAW de Art Spiegelman, criou em 1989 a lendária revista R.E.N.A.T.E, ao lado de CX Huth e Peter A. Bauer. 

Nascido e crescido na antiga Alemanha Oriental, em uma casa cheia de livros, adotou o apelido nos tempos do forte movimento punk e tinha como repertório as histórias de Digedags e alguns comics disponíveis no Instituto Francês. Hoje, gosta mesmo de ser chamado de Georg.

Em um apartamento no bairro de Prenzlauer Berg, (Berlim, antiga Alemanha Oriental), Georg recebeu o Estúdio Voador com a maior simpatia e simplicidade. Deixamos os sapatos na porta, pegamos um café na cozinha, na xícara do Moomin, e começamos um papo amigo em sua casa/estúdio, de onde o filho adolescente às vezes fazia perguntas e a flatmate basca passava curiosa.

[Fotos: Estúdio Voador]

Autor de cinco livros "voltados para crianças", é nas artes plásticas que ATAK mais se encontra. "É onde tenho mais liberdade para criar. O livro, você sabe, tem de começar e terminar em algum lugar", disse garantindo que vai ficar um tempo sem mexer nesse vespeiro. "Estou fazendo meu último livro para crianças, pois essa é só uma parte do meu trabalho e eu preciso me concentrar nas exposições, por exemplo. Eu gosto de fazer isso, às vezes, mas me sinto um pouco preso", concluiu o artista, atualmente professor de Ilustração da Universidade de Halle - cidade, aliás, que fica pertinho de Leipzig, também antiga Alemanha Oriental e para onde muitos artistas (Blexbolex é um deles) têm se mudado.

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Tudo começou em 2007, quando o editor Thierry Magnier o convidou para ilustrar um texto de Muriel Bloch. Pela mesma editora, saiu neste ano um espetáculo de livro, uma contemplação ao jardim e suas surpresas - e são muitas, inclusive feitas de personagens inusitados que, na obra francesa, traduzida da original alemã publicada pela verlag Antje Kunstamnn, ganhou abas divertidas.

Recentemente, "O Livro do Contra" foi publicado no Brasil pela Cia. das Letrinhas e em Portugal pela Planeta Tangerina, sob o título "O Mundo ao Contrário" e com essa essa descrição perfeita sobre a obra:

Neste mundo
os ratos perseguem os gatos,
as lebres caçam os caçadores,
os carros voam nos céus
os aviões flutuam no mar,
os pinguins vivem na selva tropical
e os crocodilos nas águas geladas dos polos!
Neste álbum fora do comum, ATAK desconstrói o mundo em que vivemos para nos fazer refletir sobre o certo e o errado. Um livro que põe em causa a ordem das coisas, cheio de detalhes hilariantes que as crianças (e certamente muitos adultos) vão adorar.

No repertório, ATAK tem ainda as ilustrações para o livro El Forastero Misterioso (Libros del Zorro Rojo), de Mark Twain, e uma edição especial do clássico alemão Der Struwwelpeter (Kein & Aber), feita em parceria com o cartunista Fil para comemorar os "200 anos de Heinrich Hoffmann".

©2009 by Kein & Aber, Zürich – Berlin

©2009 by Kein & Aber, Zürich – Berlin

Conhecer o local onde ATAK trabalha foi essencial para entender a dinâmica de seu processo criativo, o que resulta em obras tão boas, complexas e cheias de referências. A começar pelo seu método eficaz. Para cada trabalho que faz, ATAK cria um material chamado Collektion, uma coleção de todos os tipos de imagens que de alguma forma vão ajudá-lo a chegar no que espera.

De ilustrações de revistas, cartazes, folhetos de serviços, recortes de jornais e tudo que vê pela frente, ATAK monta um mosaico para onde retorna todos os dias. "As imagens podem não ter nada a ver com o trabalho em si, mas de alguma forma elas se agrupam e me ajudam a enxergar outras imagens. Também considero que tudo pode ser válido, de uma pintura famosa publicada em um catálogo a um folder simples de um serviço, por exemplo. Não vejo barreira entre low art e high art. Uma pessoa parou para fazer aquele trabalho e alguém vai gostar."

Nas paredes e nos armarinhos, uma infinidade de objetos, esculturas, brinquedos e máscaras que ele garimpa desde sempre em mercados de pulgas, lojinhas especializadas e viagens. Para ATAK, não é ele que coloca uma versão do Mickey no livro, por exemplo. É o próprio que pula da estande e vai parar ali.

Se reparar em seus livros, vai ver que alguns personagens famosos insistem em aparecer, muitas vezes em mais de uma página. E esse é outro ponto legal de ATAK. "Nada é cópia, pois a partir do momento em que eu desenho um Felix ou Tintin, ele já não é mais o mesmo personagem, mas uma interpretação do que  vejo e sinto dele", disse sobre uma de suas "manias". 

As paredes simbolizam a forma de ATAK enxergar a arte e fazer uso dela

As paredes simbolizam a forma de ATAK enxergar a arte e fazer uso dela

Tintas, personagens e memórias criam um mapa afetivo mais que necessário para o processo de criação do artista

Tintas, personagens e memórias criam um mapa afetivo mais que necessário para o processo de criação do artista

Originais e prints têm espaço no estúdio, mas também estão disponíveis nas galerias que representam o artista

Originais e prints têm espaço no estúdio, mas também estão disponíveis nas galerias que representam o artista

Aproveitamos a visita para trazer o Papo Pá-Pum, nossa seção autoral e amada no Garatujas Fantásticas, para o blog do Estúdio Voador. Essa é a 51a. entrevista da seção e você pode ler as anteriores aqui.

Papo Pá-Pum Participantes: Voadores e convidado.

Como funciona: uma entrevista a cada 15 dias.

Regras do jogo: as perguntas são sempre as mesmas.

Objetivo: conseguir respostas inteligentes, livres, curtas e engraçadas, na linguagem que bem entender.

Quem já brincou: Daniel KondoIsabel MinhósFrancisca YáñezJanaina TokitakaMaria EugeniaSuppaBlandina e LolloJutta BauerTartaruga FelizAndré da LobaTalita NozomiAngela-LagoLaura TeixeiraCarlinhos MüllerViscaSilvana TavanoIlan BrenmanTaline SchubachMaria Amália CamargoSilvana RandoCatarina SobralLúcia HiratsukaStela BarbieriCris EichDaniel BuenoMarilda CastanhoNelson CruzTino FreitasAndré NevesRenato MoriconiChristian Inaraja, Ionit ZilbermanYara KonoMadalena MatosoMariana ZanettiSandra JáveraAna PessoaAndré LetriaRicardo HenriquesAline AbreuRenata BuenoRaquel MatsushitaVeridiana ScarpelliMay Shuravel, Simona CiraoloBernardo CarvalhoCarla Maia de AlmeidaSocorro Acioli e Kitty Crowther.

Quem é a próxima? Madalena Moniz.

***

VOADORES: Você é autor, ilustrador, escritor ou o quê?

ATAK: No geral eu sinto que sou ilustrador, mas de alguma forma sempre me vejo como um artista. E isso é tudo.

Como é o lugar onde você trabalha?

É um lugar cheio de livros e inspiração. Vou para mercado de pulgas e lojas e sempre procuro coisas que posso colecionar. Quando trabalho, se não tenho um plano, eu olho ao redor e a partir disso tenho uma ideia. Venho do mundo dos comics e por isso gosto dessas figuras, desses personagens e acredito que de alguma forma eles têm vida própria. É uma conexão com minha infância também.

Quais cores e técnicas são suas melhores amigas?

Não tenho preferência. Eu pego o que sinto e o que está disponível em minha mesa. Não faço planos em relação às cores.

Sobre as técnicas, crio rascunhos só com imagens muito expressivas, mas que acabam ficando bem diferentes do resultado final. Ainda assim, olho o rascunho e sei exatamente o que está passando ali. Então tenho meu caderno de "collage" e tudo funciona mais ou menos junto. É como música, para cada projeto eu tenho uma playlist. Tudo é mais instintivo no meu jeito de trabalhar.

Você gosta de brincar com as palavras?

Como um jogo? Quando eu escrevo? Depende. Eu tenho de olhar muito para a imagem antes de tentar brincar com as palavras.

Por que seus livros carregam o selo infantil, se eles são bons para todas as idades?

Não tenho ideia. Não publico livros. Vejo uma conexão de ideias e idades em vários livros, por exemplo. 

Qual livro você gostava de ler quando criança?

Livros de histórias clássicas que vinham da Rússia, no geral, pois era o que chegava na Alemanha Oriental. Mas depois que o Muro caiu eu passei a gostar de outras coisas. Tenho dois dinamarqueses aqui que ganhei da minha avó.

Você pode falar de cinco livros seus que você adora?

Será que tenho cinco livros para crianças e jovens? Peraí! Sim, opa!

Comment la mort est revenue à la vie

Der Garten

Verrückte Welt

Der Struwwelpeter

El Forastero Misterioso

Um autor ou artista contemporâneo que você ama e acha que todos deveriam conhecer.

Difícil, isso muda muito, além de ter vários que eu considero demais. Mas vou dizer por quem estou fascinado nesse momento: Egon Mathiesen, pintor norte-americano. Escrevi sobre ele na minha coluna na revista Das Magazin.

Quando é melhor ler? E desenhar?

Depende. Sempre foi mais à noite, mas já faz uns 15 anos que é no começo do dia. Isso muda também, não tenho um período fixo. Para desenhar é importante que eu tenha uma lista de músicas. Como viajo muito, essas mesmas músicas ficam no modo repetir e funcionam como minha rotina, de alguma forma. No livro do Jardim eu fui mais romântico, busquei muito piano clássico. Já para o livro do Twain, por exemplo, só ouvi psicodelia.

Já que isso é tão importante para você, que música teria a cara desse bate-papo? Pode indicar algo para nossos leitores ouvirem enquanto leem nossa conversa?

Peraí que vou fazer uma playlist para vocês. 

WOW!

MAIS: Essa é a primeira entrevista do nosso novíssimo blog dentro do site do Estúdio Voador. Se você nos acompanha, sabe que criamos o Garatujas Fantásticas em 2011 e que agora trouxemos nossa mudança para essa casa nova. Mudança porque, além da parte física de escrever em outra plataforma, assim como fechamos uma porta e abrimos outra o emocional vem junto. Lembranças, referências, vivências, desejos, momentos bons e outros ruins, amigos e, o mais importante, aprendizado. Aprender e renovar são coisas muito boas e nós não temos medo de mudança, especialmente quando feitas com o coração.
Obrigada pelo carinho e clique aqui para ler nosso texto de despedida. <3