Um menino perfeito demais

Imagens: O menino perfeito, Bernat Cormand / Livros da Matriz / Reprodução

Imagens: O menino perfeito, Bernat Cormand / Livros da Matriz / Reprodução

Conheci O menino perfeito -de Bernat Cormand- em 2014, no IlustraTour [festival internacional de Ilustração que acontecia todo ano em Valladolid, na Espanha]. Foi impactante. Me lembro de ler e reler, pensar na profundidade do tema e me surpreender com a maneira extremamente sincera e delicada que o autor catalão encontrou para falar de um assunto considerado difícil / tabu / perturbador (como diz Ana Garralón antecipando a voz de alguns mediadores).

Três anos depois, a sensação é a mesma. Acabo de ler a edição brasileira, lançada por Livros da Matriz -com tradução de Dani Gutfreund-, e o livro me toca profundamente.

Daniel é um menino aplicado que faz tudo o que, aparentemente, esperam dele. Leva o cachorro para passear, faz o nó da gravata do uniforme com precisão, toca piano com desvelo e não deixa uma lição de casa para trás.

É um garoto obediente e admirável, criado em páginas duplas de cores serenas, paleta linda mas que entrega uma rotina lapidada demais, tão bem arranjada que chega a ser sufocante para quem lê os olhos de Daniel - quase sempre baixos, de canto, de lado, passantes, que não nos encara nem mesmo quando estão virados para o espelho.

É preciso, portanto, olhar além para chegarmos ao Daniel. E isso acontece no ritmo dele, quando avançamos lentamente pelas ilustrações delicadas, pelos traços finos feitos a lápis e o texto enxuto do seu dia a dia até descobrirmos seu segredo.

O menino perfeito é um presente para quem pensa as infâncias com profundidade e escuta. 
Não vou contar o que acontece na última página, mas posso dizer que o livro vem para provocar reflexões -o que pode, não pode, se pode, o que é isso de pode, é, não é- e quebrar paradigmas sobre o que muitos adultos esperam da literatura (e de outras artes) para crianças - e da própria vida delas.

Sem o peso das tradições, e com muita poesia, Daniel (ou Bernat) se abre para quem pensa em romper fronteiras estereotipadas que julgam o que devem ser meninas e meninos. Ele pede pra gente olhar pra ele e conhecer melhor o que está por trás das aparências e o que se espera das crianças quando as dividimos em dois mundos limitados em suas cores e brincadeiras (ou não).

O menino perfeito
Bernat Cormand
tradução de Dani Gutfreund
Livros da Matriz