Leitores em movimento

 

No começo do ano, logo após conhecermos o catálogo da editora MOVpalavras, nós batemos um papo com Dani Gutfreund, responsável por trazer ao mercado leituras que contribuem para a construção literária sólida e crítica. 

A MOVpalavras, cujo nome vem da ideia de leitores em movimento e que estão em formação ao longo da vida, surgiu no final de 2013. Em 2014 e 2015, 37 títulos foram publicados. Para 2016, o planejamento inicial é de mais 40 títulos.

O que nos impressionou, pelo o que pudemos ver e tocar, foi a diversidade e os muitos cuidados. Estão ali projetos ousados e pensados um a um, além de encontros entre texto, imagem e formato que trazem fôlego ao mundo dos livros dedicados às crianças.

Outro ponto bastante interessante da MOV é a coleção Gráficos Informativos - Espaço, Reino Animal e Corpo Humano - que introduz temas de não ficção de forma visual e bonita, sem perder a função inicial que é informar, mesmo valorizando muito a estética do projeto.

 

Antes de seguir para a entrevista, convidamos vocês a mergulhar com a gente na "estante" abaixo.

 

Estúdio Voador: A MOVpalavras nasce com a proposta de oferecer aos pequenos leitores títulos "fascinantes e complexos". Percebemos, ainda, um olhar voltado para o design e acabamentos, das guardas aos formatos. Conta pra gente um pouquinho sobre a linha curatorial da editora e como o catálogo vem sendo construído?

Dani Gutfreund: Emprestei da minha amiga Helena, uma pequena grande leitora, esse “livros fascinantes e complexos”. Quando a ouvi contar porque gostava de alguns livros nossos, dizendo que eram “divertidos e complexos”, pensei: “é isso! A Helena, em poucas palavras, definiu a MOV”. Mas, voltando ao assunto, acho que fazemos livros para leitores, pequenos, médios, grandes ou que mudam de tamanho, conforme se movimentam por aí, pelos caminhos que suas leituras oferecem, desvelam, revelam...

Fazemos livros para eles: leitores em movimento. Nossa coleção é feita de livros que precisam ser lidos, que te chamam da estante, que dialogam diretamente - nem sempre tão obviamente - com o que se passa na gente ou com a gente. Falam de assuntos que nos interessam e nos dizem respeito, que promovem reflexão, geram questionamentos. Acredito que sejam livros desafiadores, que exigem de nós enquanto leitores, que nos propõem viagens distintas por mundos diversos, dos clássicos aos mais inusitados, que pedem conversa, novas leituras, olhos abertos ou até que se feche os olhos, para ver o que se perde quando estamos por demais alertas.

São livros escolhidos a dedo e com o coração e, por isso, são produzidos com muito zelo em todas as etapas: queremos que nossos leitores se deleitem desde o primeiro momento em que deitam seus olhos sobre a capa, buscam a contracapa, para logo descobrir a guarda e o que guardamos ali, no virar das páginas, pensando no projeto gráfico, na tradução e edição do texto, nas ilustrações, enfim dando toda a importância a cada um dos elementos que compõem a experiência leitora, tentando fazer com que todos eles sejam excepcionais, sempre.

A ideia é que nossos leitores experimentem uma sensação semelhante a que experimento ao imaginar ou ver pela primeira vez nossos livros e, a partir daí, ir criando uma relação especial com eles a cada leitura.

Nomes fortes das artes visuais, como Marcelo Cipis, Edith Derdyk, Alessandro Sanna, Laura Teixeira, Isol e Benjamin Lacombe, para citar apenas alguns, já fazem parte do acervo de vocês. Podemos dizer que criar leitores de imagens críticos é um dos papéis da MOV?

Acho que queremos possibilitar uma experiência leitora completa. E o mundo é feito de sons, imagens, cores, palavras e muito mais, não é? Nosso papel é dialogar com os leitores em todas as instâncias, proporcionando literatura de qualidade.

Esses autores, ao lado de jovens e estreantes, trazem em sua obra algo que procuramos - o que me interessa muito mais do que serem um nome forte ou não. Não quero ter nomes no catálogo, mas livros que me encantem, desafiem e desloquem, me movendo para outro lugar.

Neste ano, entre os lançamentos, temos alguns nomes bem conhecidos, como Odilon Moraes, Fernado Villela e Renato Moriconi. E também novos artistas, como Débora Amor, Pedro França, Mariana Serri, Tiago Lisboa, Laura Gorski e Rita Almeida. Tenho uma ligação muito forte com a arte e acho que isso acaba sendo um traço marcante da coleção.

Entre os vários títulos publicados, muitos chamaram nossa atenção. Mas queremos falar de um em especial: Quando Abro os Olhos, da jovem Agnè Bruziene. O livro nasceu após a autora ter perdido duas avós em menos de dois meses. Ele fala de perda, de dor, de como as pessoas reagem a alguns sentimentos tristes - algo extremamente importante nos livros dedicados às crianças, já que através da leitura elas também podem se reconhecer, se expressar e compreender fatos em seu entorno. Como foi olhar para este livro e trazê-lo para o Brasil? Outros assuntos considerados "difíceis" estão na lista da MOV?

Quando abro os olhos foi um desses livros que me puxou para a estante, eu não podia mais ficar sem ele. Foi um dos primeiros livros que compramos. Gosto do modo como Agne enfrenta a depressão: olha fundo nos olhos dela e é transparente ao nos falar disso. Suas imagens são fortes e até duras. Você sente a dor dela e o esforço para entender o que se passava, com palavras afiadas, sempre no lugar certo, certeiras.

Em nossa lista há outros livros que tratam de coisas difíceis, porque há livros que falam da vida, de coisas que experimentamos, ou sobre as quais temos que pensar, fazer escolhas, aprender a nos colocar. O sonho de Lu Szhu, para mencionar um outro, fala de trabalho infantil e dessa dagomei que rouba peças da fábrica de brinquedos onde trabalha para montar sua boneca. O livro não acaba com uma mensagem moralista, mas deixa ao leitor a tarefa de pensar sobre essa situação que, como muitas, não tem um certo e um errado.

Em 2016, publicaremos A árvore das coisas, de Maria José Ferrada e Miguel Puig, que trata da morte, e o Menino Perfeito, de Bernat Cormand, que fala de gênero. Ambos tratam de assuntos considerados difíceis – me incomoda um pouco classificá-los assim, prefiro pensar em assuntos que nos concernem - com extrema delicadeza e poesia. 

Ao trabalhar com álbuns e outros formatos ou gêneros destinados às crianças, de que forma o processo de criação de um livro acontece? Qual a integração entre autores de texto e de imagem, entre si, mais o papel do editor? Divide com a gente um pouquinho desses bastidores na MOV ou de algum livro específico?

Os processos de criação variam muito. Recebemos muitos projetos, propostas e desenvolvemos outros. Muitas ideias ganham um novo formato nas conversas que seguem a apresentação do projeto, seja pelo escritor, ilustrador ou por nós. Muitas vezes, um texto é aprovado e vamos em busca de um ilustrador. Essa etapa do processo envolve o designer, o produtor gráfico e eu.

Falamos com o autor, que também pode nos dar sugestões de quem ele gostaria que ilustrasse seu texto. Fazemos um teste, muitas conversas. E aí o ilustrador trabalha com o designer e comigo por um tempo, sem a o autor do texto. Assim, o ilustrador pode desenvolver sua própria leitura, enriquecendo-a, trazendo novas camadas.

Outras vezes os autores trabalham juntos. De modo geral, isso acontece quando o trabalho de texto e imagem surge concomitantemente. Também acontece de as imagens darem origem à história e o texto vir depois.

É difícil contar de modo geral, cada livro tem uma história que vai se fazendo ao longo dessa conversa entre os profissionais envolvidos. Todos com uma participação importante. 

Em um momento em que a oferta de livros destinados às crianças é tão grande, quais os desafios de uma editora nova? 

Os desafios são muitos. Há tantos livros incríveis no mundo e tanta gente produzindo coisas tão boas, o que já é um desafio em si, especialmente agora. Acho que uma coisa importante de não perder de vista é a qualidade literária da produção, é sempre pensar no leitor, na sua experiência leitora, em seu desenvolvimento e formação literária e como indivíduo, com franqueza e comprometimento – dar aos leitores o que se tem de melhor, sempre. E daí, você tem que vender e lidar com os vícios do mercado, entender que não temos uma produção comercial, mas investimos num leitor que preza deslocamentos e está disposto a movimentar-se, e na formação de cidadãos críticos e reflexivos.

Além da MOVpalavras, um outro braço focado nas escolas faz parte da editora: MOVprojetos. De que forma ele se aproxima dos educadores e trabalha para a formação literária desses profissionais? Alguma experiência já foi colocada em prática e pode ser compartilhada com a gente?

A MOVprojetos publica programas pedagógicos, desenvolvidos por uma equipe docente especializada, contratada pela editora, para formação de professores. Temos um programa pronto, o Matemática em jogo, e um em desenvolvimento, de alfabetização. Os programas contam com material do professor, material do aluno, jogos (MAJOG) ou livros da coleção (alfabetização), capacitação dos professores e acompanhamento. 

No ano passado, começamos a aplicação do Matemática em Jogo, um programa para a alfabetização matemática e ensino fundamental que trabalha conceitos matemáticos por meio de jogos, em Búzios e em algumas escolas particulares, com ótimos resultados. São 28 jogos acompanhados de material do aluno e do professor, além da capacitação dos mesmos por especialistas.