O diário de guerra de Polina, dos 9 aos 19 anos

"Então os aviões começaram a fazer barulho! Ouvimos a primeira bomba cair. Corremos para a parte residencial, do outro lado da rua. Achamos um porão, mas era um pequeno. Cinco pessoas já estavam lá dentro, espremidas umas nas outras. Não havia lugar para entrar! Voltamos! À entrada da casa! OK, não estava fechada. Ficamos acocorados em um canto da casa de outra pessoa. Uma explosão! Outra explosão! Um homem em uma casa do outro lado gritava. Os andares de cima estavam pegando fogo."*

Assim foi o dia 28 de outubro de 1999, de acordo com o diário de Polina Zherebtsova, uma garota de apenas 14 anos. O trecho, que narra o início da segunda guerra chechena, é parte do livro “Ant in a Glass Jar – Chechen Diaries 1994-2004″ (“A formiga em um pote de vidro – Diários Chechenos 1994-2004″, em tradução livre), que ganha esta semana uma esperada versão em alemão.

Capa do diário de Polina, de 1995. Fonte: Wikicommons

Capa do diário de Polina, de 1995. Fonte: Wikicommons

Polina vivia em Grozny, capital da Chechênia, uma pequena república do Cáucaso, hoje parte da Rússia. Dos 9 aos 19 anos, ela manteve um diário em que relatou todas as turbulências do período, o que lhe rendeu o apelido de “nova Anne Frank” da revista semanal Der Spiegel.

A comparação remete ao diário mais lido do século 20. Assim como Polina, a menina judia Anne Frank escreveu às escondidas suas memórias durante um período de guerra e perseguição. No entanto, Anne morreu durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto Polina vive em asilo político na Finlândia e tem viagens marcadas para divulgar seu trabalho. Ela tem 29 anos.

Polina em 2011. Fonte: Wikicommons

Polina em 2011. Fonte: Wikicommons

Em entrevista à rádio estatal britânica BBC, a escritora chechena compara Grozny a Estalingrado durante a Segunda Guerra Mundial. Ambas foram completamente destruídas. Polina vivia com sua mãe da venda de jornais, e não tinha meios de sair da cidade.

“Vivíamos em estado de sítio. Os rebeldes chechenos ainda não haviam saído da cidade, e os russos não haviam entrado, então não tínhamos nada. Era um caos total. Tínhamos de dormir no chão dos corredores, onde não havia nada. Nevada e chovia através das janelas e das paredes. Muitos de nós – minha família e meus vizinhos – ficamos doentes por conta disso”, relata Polina, durante a entrevista.

Ela continua: “Eu estava ferida. Tinha 15 estilhaços no meu corpo. Minha mãe tinha um.”

A escritora conta que foi ferida no dia 21 outubro de 1999, após uma bomba russa ter explodido no mercado central de Grozny. No diário, há o registro deste dia:

"Minha mãe e eu fomos feridas. Eu vi uma mulher morta sentada atrás da mesa. Os feridos se esconderam no café e nos corredores de entrada de suas casas. Os homens – voluntários de resgate – recolheram as vítimas do tiroteio, e distribuíram os corpos em carros. Os que estavam seriamente feridos foram primeiro… Tudo começou inesperadamente, por volta das 17h. Estávamos empacotando os bens que sobraram – dois sacos. Um para mim, outro para minha mãe. Então encontramos Kusum com um pequeno bebê. Nós ficamos por ali, conversamos. De repente, uma luz forte iluminou o céu. Em seguida, um forte trovão. Por medo, nós nos escondemos sob a mesa, ficamos em volta das pernas de ferro. Não havia outro esconderijo. Uma explosão! Então outra. Parece que a mesma coisa estava explodindo várias vezes seguidas. Nós corremos, perdemos nossos bens, até o terreno da Casa de Moda. Bem no centro de Grozny. Rua Rosa de Luxemburgo."*

Trecho não publicado do diário de Polina. Da página da autora.

Trecho não publicado do diário de Polina. Da página da autora.

O livro de Polina ainda não foi traduzido para o português, e somente trechos esparsos foram levados para o inglês. O lançamento previsto para a edição alemã é 6 de março. São 572 páginas de um raro relato em primeira pessoa de uma infância vivida sob a sombra da guerra.

Destruição da casa de Polina em Grozny. Foto: Wikicommons.

Destruição da casa de Polina em Grozny. Foto: Wikicommons.

Jaqueta da edição em russo, publicada pela editora Corpus.

Jaqueta da edição em russo, publicada pela editora Corpus.

Capa da edição alemã, da editora Rowohlt.

Capa da edição alemã, da editora Rowohlt.

Polina, que é jornalista, mantém um blog ativo aqui, em russo.

Este vídeo abaixo, com legendas em inglês, é de uma apresentação do livro. Polina não participou, mas as falas dos convidados oferecem um pouco do contexto em que a obra foi escrita.

*Tradução livre a partir da versão em inglês. Para mais trechos em inglês, aqui.