A democracia nasce para todos (e a ditadura também)

Acossados pelo general Francisco Franco durante 36 anos (1938-1975), artistas espanhóis reagiram às sombras e ao isolamento. Muita gente, como Federico García Lorca, foi calada sob o grito dos fuzis, mas respostas como a de Picasso, com o mural Guernica, e de Miró com as litografias da Série Barcelona marcaram com ferro quente os primeiros passos da longa ditadura.

O franquismo, porém, só foi ruir institucionalmente com a morte de seu líder em 20 de novembro de 1975. A transição à democracia, que aconteceria em seguida, foi bastante atribulada. Juan Carlos I foi proclamado rei e o alto escalão ligado ao general comandou os passos até a realização das primeiras eleições, em 1977 (com vitória do UCD, partido de maioria franquista) e da elaboração da Constituição Espanhola de 1978.

Foi durante esse período conturbado, entre 1977 e 1978, com o país em ebulição, que uma pequena editora de Barcelona, La Gaya Ciencia, lançou a série Libros para Mañana (Livros para o Amanhã), composta por quatro obras informativas para crianças sobre sistemas políticos, classes e gênero. 

Os dois primeiros, A Ditadura É Assim (texto de Equipo Plantel e ilustras de Mikel Casal) e A Democracia Pode Ser Assim (texto também de Equipo Plantel e ilustras de Marta Pina), chegam às livrarias brasileiras como aposta da Boitatá, novo selo infantojuvenil da Boitempo Editorial. A tradução e edição das obras é de Thaisa Burani.

Gifs divertidos: Boitempo Editorial.

Gifs divertidos: Boitempo Editorial.

A história por trás da série é fascinante. 

A editora La Gaya Ciencia não existe mais. Os livros, fora de catálogo, foram resgatados em um sebo e republicados pela pequena e arrojada Media Vaca, com sede em Valência, que tem no catálogo ilustradores aclamados, como Arnal Ballester e o brasileiro Eloar Guazzeli. 

A escolha da Media Vaca não veio por acaso: quarenta anos após a morte de Franco, o modelo da transição espanhola da ditadura à democracia ainda é tema de discussões. Pois a escolha da Boitatá caminha na mesma direção: 30 anos após o fim da ditadura brasileira, há quem ainda peça nas ruas a volta dos militares ao poder.

O texto, que continua atual, é direto quando tem de ser e poético quando consegue. Para conversar, as escolhas estéticas são bastante elegantes (vamos falar delas mais adiante). A combinação é rara no campo da política para crianças, tema até recentemente afogado por opções caretas – salvo boas e poucas exceções. 

“Conversamos com educadores e eles sentem falta de material de apoio em sala de aula”, contou Thaisa, editora da Boitatá, ao Estúdio Voador. “E isso é uma coisa que a Boitempo sabe fazer.” 

O foco do selo, que deve ir além de informativos e paradidáticos, cai sobre questões sociais e de representatividade, gênero e classes, sem perder o olhar para a literatura para crianças. “Queremos transmitir valores, falar de pautas políticas, sociais, cotidianas”, acrescentou.

O selo espera lançar os outros dois títulos da série, O que são classes sociais? e As mulheres e os homens no início de 2016, além de outros cinco livros durante o ano.

A Ditadura É Assim

O resultado mais visível do primeiro lançamento da Boitatá é que agora dá para brincar de procurar duas figurinhas brasileiras – Médici e Geisel – na ótima galeria de ditadores que ilustra as guardas do livro. Eles estão ao lado de Videla, Stálin, Pol Pot, Mussolini, Hitler e do próprio Francisco Franco.  

Quer brincar também? Clique na imagem e encontre Médici.

Médici e Geisel não figuravam na edição original, claro. Quando o livro foi publicado na Espanha, Geisel ainda estava no poder. Por isso, o ilustrador Mikel Casal atualizou a galeria especialmente para a edição brasileira. Amostra do cuidado com a atualização da obra.

Os retratos dos ditadores dão o tom da qualidade das escolhas visuais do livro. Personagens achatados, ironicos, sem profundidade, formados por figuras geométricas e restritos em espaços de figuras geométricas. Setas, triângulos, círculos, quadrados, quadrados e quadrados dão sensação de clausura em cores pesadas.

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O texto é de um coletivo multidisciplinar chamado Equipo Plantel. Há raríssimas informações sobre quem eles eram, mas a atualidade do material – uma narrativa de início, meio e fim de uma ditadura – pretende mais do que apenas ensinar.

Como ela toma a trajetória de um ditador como exemplo, ela instiga novas perguntas. E deixa um caminho aberto: com o fim da ditadura, a trilha para a liberdade está aberta. Mas que liberdade é essa? É o que o livro número 1 da série tenta responder.

A Democracia Pode Ser Assim

Substituição no time dos ilustradores. Saem os traços duros e irônicos de Mikel, entram as colagens da espanhola Marta Pina, com forte pegada dadaísta. Nada melhor para um livro sobre democracia, em que as regras existem (até mesmo o dadaísmo tinha regras) e a liberdade ainda é limitada (assim como as possibilidades que a técnica permite).

Vale ressaltar que Pina não foi a responsável pela ilustração original do livro, mas escolha da editora Media Vaca para refazê-lo.

Mais uma vez, o cuidado da edição com as guardas do livro chama a atenção. As fotos das crianças, que representam o futuro pós-ditadura, são de filhos de funcionários da editora e de leitores. Boa solução para substituir as fotos de crianças espanholas do original, que não tinham a mesma diversidade do público brasileiro.

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Voltando à ilustração, Pina se esmera em trabalhar com imagens das primeiras décadas no século 20, que dão ao livro um tom nostálgico. A tecnologia aparece em forma de foguetes espaciais, televisores antigos, carros das décadas de 1960 e 1970 que devem ter saído de edições da Mecânica Popular e pessoas, muitas pessoas bem vestidas, entre imagens coloridas e em preto e branco, que parecem realizar sonhos a todo momento.

O texto, aqui, é um pouco mais sisudo em relação ao livro sobre a ditadura. Os autores não elegem um personagem ou trabalham com uma proposta temporal de começo, meio e fim. As linhas são descritivas, equilibrada entre prós e contras, erros e acertos. Soa como um manual introdutório sobre democracia, com a grande vantagem de ter um claro valor artístico. As colagens complementam os textos com bom humor. E são de encher os olhos. 

Dois pontos extras para os livros: a adição de uma série de perguntas sobre a leitura ao final de cada livro e de dois textos de Ruy Braga e Leandro Konder, autores da Boitempo, como complemento às edições originais. Ótima proposição para instigar debates futuros.

Pois então. Vamos falar com as crianças sobre democracia e ditadura?

E também sobre colagens e ilustrações, ditadores e representatividade, texto e narrativa, e tantas coisas mais que os livros possibilitam?