Frida e as crianças

Fotos: Divulgação

Fotos: Divulgação

Dividida em seis eixos temáticos, a exposição Frida e Eu segue no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro até 2 de outubro. Para falar de autorretrato, família, dor, Diego, natureza e Paris, "momentos ou aspectos importantes da vida da artista mexicana", a mostra apresenta diversas possibilidades de interação. "São experiências que vão muito além do tocar, apertar, montar e se surpreender", conta Daniela Kohl Schlochauer, da Bacuri Cultural, responsável por trazer "Frida e Eu" para o Brasil.

Pedagoga de formação, especialista em crianças de 0 a 3 anos e em gestão de Recursos Humanos, foi depois do nascimento de seus filhos que Daniela teve certeza de que queria conciliar um trabalho ao seu interesse genuíno de ver os filhos crescerem bem. Aos poucos, foi formando a equipe da Bacuri Cultural, produtora que nasce agora e conta com oito profissionais de diferentes formações e atividades, mas com um mesmo interesse. "São pessoas que igualmente se apaixonaram pelo projeto e que viram nele uma possibilidade de oferecer um repertório maior para as crianças, além de proporcionar essa interação tao essencial entre as crianças e adultos", disse ao Estúdio Voador, na entrevista que segue abaixo.

Estúdio Voador: De que forma as crianças podem interagir com as obras?

Daniela Kohl Schlochauer: O objetivo é fazer com que a criança "se sinta Frida” e faça correlações com sua própria vida. Que experimente algumas situações que foram marcantes para a artista, como por exemplo o acidente que a deixou presa à uma cama e, desta forma, provocou o início de sua carreira como pintora. Presa à cama, ela começou a pintar. As crianças poderão deitar em uma cama, se olhar num espelho e fazer um autorretrato. Em uma outra estação, as crianças poderão escolher um cenário e usar objetos para compor este cenário tal como a artista fazia e tirar uma foto.

 

Como falar de Frida para as crianças?

Isso foi um dos pontos primordiais que me deixaram encantada quando a exposição pela primeira vez, no Centro Pompidou de Paris: falar de uma artista que tem uma história densa, cheia de episódios marcados pelo sofrimento e pela dor, de uma maneira leve e lúdica e sem maquiar ou esconder os fatos. E conseguir fazer isso de forma sutil e delicada.

É isso que a exposição proporciona. Não tem o objetivo de fazer com que as crianças se tornem “experts” após a  visita, mas sim de aproximar e atrair a criança ao espaço do museu, usando pra isso uma artista importante, conhecida e que transformou sofrimento em oportunidade. Frida é conhecida em todo o mundo como modelo de superação e sua história nos cativa até os dias de hoje.

Alguma obra em particular costuma chamar a atenção? Qual e por quê?

A exposição Frida e Eu não contém acervo. Ela traz reproduções dos lugares e paisagens que a artista costumava frequentar e viver. "O Jardim", por exemplo, é uma instalação sonora em que a criança pode deitar e sentir como se estivesse no jardim da Casa Azul (casa onde Frida morou). A idéia é que ela feche os olhos e se deixe levar pelos sons que vão aguçar sua imaginação.

A que mais me chama a atenção é a própria Casa Azul, onde os visitantes podem tirar fotos e sentir como se estivesse dentro de uma obra - um efeito bastante interessante e que tem agradado não somente as crianças. Como disse, o objetivo é aguçar as percepções, a curiosidade e a imaginação, além de divertir.

Bebês também são bem-vindos?

Sim. Também um dos principais propósitos da exposição é provocar essa interação entre pais, adultos e crianças - o que temos observado acontecer com bastante intensidade, já nos primeiros dia da exposição. Bebês vão precisar de um pouco mais de suporte dos pais, obviamente, mas são muito bem-vindos!

Originalmente, a exposição foi concebida pensando em crianças de 5 a 10 anos, mas costumamos dizer que na prática ela está destinada a uma faixa bem maior: 0 a 99 anos. 

Em 2017, a expo seguirá por São Paulo. Para saber mais, não deixe de seguir a página da Bacuri Cultural no Facebook. Agendamento de grupos também já podem ser feitos por email: agendamentofrida@bacuricultural.com.br

Questionar a autoridade é responsabilidade de cada cidadão

Imagens: A Rule Is To Break: A Child's Guide to Anarchy / Reprodução

Imagens: A Rule Is To Break: A Child's Guide to Anarchy / Reprodução

Se tem uma coisa que deveria ser garantida a todas as crianças, além dos direitos básicos, é a certeza de que estão sendo formadas para serem livres, críticas e questionadoras, sem rótulos sobre o que a sociedade considera normal ou aceitável.

Foi pensando nisso que trouxe para o blog do Estúdio Voador um livro genial que conheci há alguns anos: A Rule Is To Break: A Child's Guide to Anarchy (em tradução livre, Uma regra é para ser quebrada - Guia anárquico para crianças), publicado pela Manic D Press.

Nele, os autores John e Jana incentivam crianças e pais a abraçar a anarquia como parte dos valores da família. A ideia surgiu em 2011 da própria frustração do casal a partir do que presenciavam no mundo, e também por estarem cansados de livros com finais moralistas.

Foi ainda observando seus próprios filhos que viram ser preciso questionar as regras já na infância. Dessa forma, abriram um canal para que eles pudessem se expressar e, com responsabilidade, fazer escolhas que os transformassem em pessoas respeitosas e muito conscientes de seus papéis na sociedade em que vivem.

Quebrar regras, para eles, era permitir e até incentivar que os filhos pulassem um banho, trocassem um dia na pré-escola por um passeio na praia ou até mesmo subissem mais alto na árvore.

E é sobre isso que o livro trata. Com personagens doces e divertidos, frases curtas e ilustrações bem coloridas retratam um ambiente ideal onde é permitido viver de forma mais livre, leve, confiante e colaborativa. Nada conservadora. Bem menos oprimida pelo consumo e só.

"Eu prefiro um mundo cheio de crianças que questionam por que elas precisam fazer alguma coisa a um mundo em que elas simplesmente obedecem tudo o que a escola ou os pais dizem. Afinal, ensinar os filhos a quebrar as regras não significa criar filhos pouco educados e que pensam que podem fazer o que quiserem sem nunca enfrentar consequências. Tratar desse tema significa criar filhos que pensam sobre o que está sendo dito para que possam se perguntar se e como aquilo se aplica a eles", disse o casal (em tradução livre) ao site Rocker.

Para os autores, a anarquia nada mais é do que uma porção de ideias viáveis sobre um mundo sem perseguição, feito de respeito mútuo, cooperação e tolerância com as diferenças.

Hoje, em um momento em que vemos uma camada da sociedade bater o pé e chamar de opinião aquilo que é preconceito - e aqui estou falando de pais que ensinam aos filhos que homossexualidade é doença, que a crença do outro é menor, que o feminismo é uma piada, que agora nem se pode mais fazer humor ou ter empregada doméstica, e que ajudas sociais são para preguiçosos, só para citar algumas tristezas -  nada melhor do que projetos informativos, diversificados, criativos e inspiradores para nos tirar do lugar e fazer com que a gente enxergue o mundo por outras lentes.

Eduque-se! Use seu cérebro (e seu coração).

 

Leitores em movimento

 

No começo do ano, logo após conhecermos o catálogo da editora MOVpalavras, nós batemos um papo com Dani Gutfreund, responsável por trazer ao mercado leituras que contribuem para a construção literária sólida e crítica. 

A MOVpalavras, cujo nome vem da ideia de leitores em movimento e que estão em formação ao longo da vida, surgiu no final de 2013. Em 2014 e 2015, 37 títulos foram publicados. Para 2016, o planejamento inicial é de mais 40 títulos.

O que nos impressionou, pelo o que pudemos ver e tocar, foi a diversidade e os muitos cuidados. Estão ali projetos ousados e pensados um a um, além de encontros entre texto, imagem e formato que trazem fôlego ao mundo dos livros dedicados às crianças.

Outro ponto bastante interessante da MOV é a coleção Gráficos Informativos - Espaço, Reino Animal e Corpo Humano - que introduz temas de não ficção de forma visual e bonita, sem perder a função inicial que é informar, mesmo valorizando muito a estética do projeto.

 

Antes de seguir para a entrevista, convidamos vocês a mergulhar com a gente na "estante" abaixo.

 

Estúdio Voador: A MOVpalavras nasce com a proposta de oferecer aos pequenos leitores títulos "fascinantes e complexos". Percebemos, ainda, um olhar voltado para o design e acabamentos, das guardas aos formatos. Conta pra gente um pouquinho sobre a linha curatorial da editora e como o catálogo vem sendo construído?

Dani Gutfreund: Emprestei da minha amiga Helena, uma pequena grande leitora, esse “livros fascinantes e complexos”. Quando a ouvi contar porque gostava de alguns livros nossos, dizendo que eram “divertidos e complexos”, pensei: “é isso! A Helena, em poucas palavras, definiu a MOV”. Mas, voltando ao assunto, acho que fazemos livros para leitores, pequenos, médios, grandes ou que mudam de tamanho, conforme se movimentam por aí, pelos caminhos que suas leituras oferecem, desvelam, revelam...

Fazemos livros para eles: leitores em movimento. Nossa coleção é feita de livros que precisam ser lidos, que te chamam da estante, que dialogam diretamente - nem sempre tão obviamente - com o que se passa na gente ou com a gente. Falam de assuntos que nos interessam e nos dizem respeito, que promovem reflexão, geram questionamentos. Acredito que sejam livros desafiadores, que exigem de nós enquanto leitores, que nos propõem viagens distintas por mundos diversos, dos clássicos aos mais inusitados, que pedem conversa, novas leituras, olhos abertos ou até que se feche os olhos, para ver o que se perde quando estamos por demais alertas.

São livros escolhidos a dedo e com o coração e, por isso, são produzidos com muito zelo em todas as etapas: queremos que nossos leitores se deleitem desde o primeiro momento em que deitam seus olhos sobre a capa, buscam a contracapa, para logo descobrir a guarda e o que guardamos ali, no virar das páginas, pensando no projeto gráfico, na tradução e edição do texto, nas ilustrações, enfim dando toda a importância a cada um dos elementos que compõem a experiência leitora, tentando fazer com que todos eles sejam excepcionais, sempre.

A ideia é que nossos leitores experimentem uma sensação semelhante a que experimento ao imaginar ou ver pela primeira vez nossos livros e, a partir daí, ir criando uma relação especial com eles a cada leitura.

Nomes fortes das artes visuais, como Marcelo Cipis, Edith Derdyk, Alessandro Sanna, Laura Teixeira, Isol e Benjamin Lacombe, para citar apenas alguns, já fazem parte do acervo de vocês. Podemos dizer que criar leitores de imagens críticos é um dos papéis da MOV?

Acho que queremos possibilitar uma experiência leitora completa. E o mundo é feito de sons, imagens, cores, palavras e muito mais, não é? Nosso papel é dialogar com os leitores em todas as instâncias, proporcionando literatura de qualidade.

Esses autores, ao lado de jovens e estreantes, trazem em sua obra algo que procuramos - o que me interessa muito mais do que serem um nome forte ou não. Não quero ter nomes no catálogo, mas livros que me encantem, desafiem e desloquem, me movendo para outro lugar.

Neste ano, entre os lançamentos, temos alguns nomes bem conhecidos, como Odilon Moraes, Fernado Villela e Renato Moriconi. E também novos artistas, como Débora Amor, Pedro França, Mariana Serri, Tiago Lisboa, Laura Gorski e Rita Almeida. Tenho uma ligação muito forte com a arte e acho que isso acaba sendo um traço marcante da coleção.

Entre os vários títulos publicados, muitos chamaram nossa atenção. Mas queremos falar de um em especial: Quando Abro os Olhos, da jovem Agnè Bruziene. O livro nasceu após a autora ter perdido duas avós em menos de dois meses. Ele fala de perda, de dor, de como as pessoas reagem a alguns sentimentos tristes - algo extremamente importante nos livros dedicados às crianças, já que através da leitura elas também podem se reconhecer, se expressar e compreender fatos em seu entorno. Como foi olhar para este livro e trazê-lo para o Brasil? Outros assuntos considerados "difíceis" estão na lista da MOV?

Quando abro os olhos foi um desses livros que me puxou para a estante, eu não podia mais ficar sem ele. Foi um dos primeiros livros que compramos. Gosto do modo como Agne enfrenta a depressão: olha fundo nos olhos dela e é transparente ao nos falar disso. Suas imagens são fortes e até duras. Você sente a dor dela e o esforço para entender o que se passava, com palavras afiadas, sempre no lugar certo, certeiras.

Em nossa lista há outros livros que tratam de coisas difíceis, porque há livros que falam da vida, de coisas que experimentamos, ou sobre as quais temos que pensar, fazer escolhas, aprender a nos colocar. O sonho de Lu Szhu, para mencionar um outro, fala de trabalho infantil e dessa dagomei que rouba peças da fábrica de brinquedos onde trabalha para montar sua boneca. O livro não acaba com uma mensagem moralista, mas deixa ao leitor a tarefa de pensar sobre essa situação que, como muitas, não tem um certo e um errado.

Em 2016, publicaremos A árvore das coisas, de Maria José Ferrada e Miguel Puig, que trata da morte, e o Menino Perfeito, de Bernat Cormand, que fala de gênero. Ambos tratam de assuntos considerados difíceis – me incomoda um pouco classificá-los assim, prefiro pensar em assuntos que nos concernem - com extrema delicadeza e poesia. 

Ao trabalhar com álbuns e outros formatos ou gêneros destinados às crianças, de que forma o processo de criação de um livro acontece? Qual a integração entre autores de texto e de imagem, entre si, mais o papel do editor? Divide com a gente um pouquinho desses bastidores na MOV ou de algum livro específico?

Os processos de criação variam muito. Recebemos muitos projetos, propostas e desenvolvemos outros. Muitas ideias ganham um novo formato nas conversas que seguem a apresentação do projeto, seja pelo escritor, ilustrador ou por nós. Muitas vezes, um texto é aprovado e vamos em busca de um ilustrador. Essa etapa do processo envolve o designer, o produtor gráfico e eu.

Falamos com o autor, que também pode nos dar sugestões de quem ele gostaria que ilustrasse seu texto. Fazemos um teste, muitas conversas. E aí o ilustrador trabalha com o designer e comigo por um tempo, sem a o autor do texto. Assim, o ilustrador pode desenvolver sua própria leitura, enriquecendo-a, trazendo novas camadas.

Outras vezes os autores trabalham juntos. De modo geral, isso acontece quando o trabalho de texto e imagem surge concomitantemente. Também acontece de as imagens darem origem à história e o texto vir depois.

É difícil contar de modo geral, cada livro tem uma história que vai se fazendo ao longo dessa conversa entre os profissionais envolvidos. Todos com uma participação importante. 

Em um momento em que a oferta de livros destinados às crianças é tão grande, quais os desafios de uma editora nova? 

Os desafios são muitos. Há tantos livros incríveis no mundo e tanta gente produzindo coisas tão boas, o que já é um desafio em si, especialmente agora. Acho que uma coisa importante de não perder de vista é a qualidade literária da produção, é sempre pensar no leitor, na sua experiência leitora, em seu desenvolvimento e formação literária e como indivíduo, com franqueza e comprometimento – dar aos leitores o que se tem de melhor, sempre. E daí, você tem que vender e lidar com os vícios do mercado, entender que não temos uma produção comercial, mas investimos num leitor que preza deslocamentos e está disposto a movimentar-se, e na formação de cidadãos críticos e reflexivos.

Além da MOVpalavras, um outro braço focado nas escolas faz parte da editora: MOVprojetos. De que forma ele se aproxima dos educadores e trabalha para a formação literária desses profissionais? Alguma experiência já foi colocada em prática e pode ser compartilhada com a gente?

A MOVprojetos publica programas pedagógicos, desenvolvidos por uma equipe docente especializada, contratada pela editora, para formação de professores. Temos um programa pronto, o Matemática em jogo, e um em desenvolvimento, de alfabetização. Os programas contam com material do professor, material do aluno, jogos (MAJOG) ou livros da coleção (alfabetização), capacitação dos professores e acompanhamento. 

No ano passado, começamos a aplicação do Matemática em Jogo, um programa para a alfabetização matemática e ensino fundamental que trabalha conceitos matemáticos por meio de jogos, em Búzios e em algumas escolas particulares, com ótimos resultados. São 28 jogos acompanhados de material do aluno e do professor, além da capacitação dos mesmos por especialistas.

Parece comigo: bonecas negras contra o racismo

Carolina Monteiro, que tem mais de 500 mil visualizações em seu canal no YouTube, onde compartilha como construir "uma infância saudável e uma autoestima sólida" - Foto: divulgação

Carolina Monteiro, que tem mais de 500 mil visualizações em seu canal no YouTube, onde compartilha como construir "uma infância saudável e uma autoestima sólida" - Foto: divulgação

Já entrou em uma loja de brinquedos e reparou como a oferta de bonecas negras é rara ou até mesmo inexistente? 

Mesmo sabendo ser essencial que as crianças brinquem com algo que reflita quem elas são, o mercado (de brinquedos e outros) ainda patina no que diz respeito à representatividade. Por outro lado, artistas muito conscientes batalham para oferecer esses objetos.

Focado principalmente no trabalho de artesãs que produzem bonecas negras em São Paulo, o documentário Parece Comigo, de Kelly Cristina Spinelli, será lançado em breve e então exibido pela TV Brasil.

Conversamos com Kelly para saber mais sobre o filme e os caminhos desse tema tão importante.

ESTÚDIO VOADOR: Parece comigo traz para a tela um tema muito importante, que é a representatividade. Como uma boneca ajuda a fortalecer a identidade de uma criança negra?

KELLY CRISTINA SPINELLI: As crianças negras; aliás, as mulheres negras em geral, não são bem representadas. Nem em filmes, nem em séries, nem nas ilustrações de livros infantis, nem nas bonecas... É difícil pra qualquer criança ter uma boa autoestima, se achar bonita, se achar boa, se ela cresce vendo modelos de beleza, de riqueza, de bondade que não são parecidos com ela.

A questão das bonecas é particularmente preocupante porque as meninas usam a boneca para se representar, dentro de casa, desde muito pequenas. Como diz uma das nossas entrevistadas, a psicóloga Clélia Prestes, é com elas que muitas meninas brincam de serem adultas. As meninas negras estão brincando de serem adultas, em sua maioria, com bonecas brancas. Eu pergunto como elas podem fortalecer sua identidade assim? Isso é um problema muito sério.

E é um problema também que as meninas brancas não estejam brincando com bonecas negras. Obviamente isso não afeta a autoestima delas, que estão em uma posição de poder e vantagem na sociedade, que não sofrem com o racismo, mas afeta a sua visão de mundo. Elas não vão enxergar o mundo plural onde vivemos, não vão aprender a conviver com as diferenças, se crescerem só com bonecas brancas, só com modelos brancos de beleza e bondade.

Que histórias serão contadas no documentário e como isso pode ajudar no combate ao racismo na infância?

O documentário é principalmente focado no trabalho das bonequeiras, que são artesãs muito conscientes, que batalham para produzir bonecas negras e atingir o máximo possível de mercado. O filme tem histórias muito tocantes sobre essas bonequeiras, o esforço delas, o primeiro contato delas com bonecas negras.

Além disso falamos com a Preta Rara, uma rapper maravilhosa que também toca nesse assunto em suas músicas [abaixo, com Negra Jack], e com algumas crianças negras que têm bonecas negras. A ideia é dar voz para essas mulheres, para a luta que elas estão travando diariamente, divulgar o trabalho delas, conscientizar quem assistir.

 

MC Soffia é uma das personagens de Parece Comigo. Você pode dividir com a gente alguma fala ou depoimento dela no documentário?

O que pouca gente sabe sobre a MC Soffia é que ela é neta de uma grande bonequeira e ativista da cidade, a Lucia Makena. Então a Soffia teve contato com bonecas negras desde pequena e ela é a prova viva de como isso faz diferença (no filme isso fica muito transparente). Ela também canta e fala um pouco da sua experiência com as bonecas e de quando sofreu racismo na escola.

MC Soffia: hip hop e empoderamento das meninas negras - Foto: divulgação

MC Soffia: hip hop e empoderamento das meninas negras - Foto: divulgação

Que outros personagens são apresentados em Parece Comigo? Há outras crianças, como MC Soffia?

Sim! A Carolina Monteiro, uma menina maravilhosa e já famosa no YouTube, que é de Minas Gerais, também está no filme. Assim como a Soffia, ela também é uma criança que já cresceu rodeada de boas referências negras, que a mãe dela, Patricia, faz questão de levar pra casa. A Carolina topou vir pra São Paulo passear por uma loja de brinquedos e dar sua opinião sobre o que ela encontrava lá.

A pesquisa para o filme foi feita em alguma cidade ou Estado brasileiro, ou você percorreu o País para contar essa história?

A pesquisa começou na cidade de São Paulo, e a ideia inicial era focar somente nas bonequeiras daqui, até pra poder viabilizar o projeto financeiramente. Mas no decorrer da produção acabamos trazendo para o documentário também a Lena Martins, criadora da boneca Abayomi, uma boneca que é muito ensinada em oficinas pelo país inteiro. 

Apesar de a falta de bonecas negras ser generalizada no país, o documentário segue algumas bonequeiras aqui de São Paulo e a Lena. Não tive contato com a produção de outras bonequeiras de outros Estados. Mas seria maravilhoso conseguir estender o tema pelo país.

O que mais chamou a sua atenção sobre o assunto enquanto pesquisava e organizava as entrevistas?

Eu acho que a primeira coisa que chama a atenção é justamente a falta de bonecas negras. Eu sou branca, eu nunca sofri preconceito racial. Um belo dia encontrei a Ana Fulô, que vende suas bonecas na Avenida Paulista, e conversei com ela sobre isso.  Depois fui a uma loja de brinquedos e fiquei revoltadíssima. Muitas pessoas que tiveram contato com o tema têm essa primeira mesma reação: “nossa eu nunca tinha pensado sobre isso”. Então, em um primeiro momento, é impactante ver que questões relacionadas à infância muitas vezes passam despercebidas. Justo as questões relacionadas à infância!!! Como nós vamos ter gerações melhores no futuro se a gente não presta atenção nas crianças?

O meu curta anterior, A Festa da Joana, que aliás foi meu primeiro curta, já tinha a ver com a infância. É uma ficção sobre uma menina que quer fazer uma festa considerada de menino e sofre preconceito. Então antes disso eu também já estava questionando essa questão de brinquedos de menina x brinquedos de menino – nesse caso um problema que me afetou pessoalmente quando criança. Eu e as lojas de brinquedos temos uma relação problemática há tempos [risos].

Mais adiante no desenvolvimento do filme, apareceram histórias tristes demais, de meninas que, na tentativa de se adequarem aos padrões de beleza, tentam clarear a pele, se machucam usando produtos químicos ou outras formas de tentarem ficar “mais brancas”. Essa é uma reação física e autodestrutiva ao preconceito, à falta de representatividade. Uma das nossas personagens conta uma história assim no documentário.

Quem hoje são os produtores de bonecas negras que vale destacarmos aqui? E onde adquirir as bonecas?

A Ana Fulô, que vende aos domingos na Avenida Paulista, e em outras feiras na cidade, a Andrea Ramos, das bonecas Nega Fulô, a Lucia Makena, que também vende em feiras e eventos as bonecas Makena, a Preta Pretinha, que já é bem conhecida e consolidada, é uma loja na Vila Madalena. Fora isso, vira e mexe você encontra oficinas de Abayomi na cidade. Aliás, colocamos uma lista com contatos na página do filme no Facebook e está sendo legal ver ela crescer, já incluímos duas ou três novas bonequeiras do Rio que entraram em contato com a gente, tomara que apareçam mais.

Ana Fulô, que há mais de 15 anos começou a fazer as bonecas com objetivo de elevar a autoestima das crianças negras - Foto: divulgação

Ana Fulô, que há mais de 15 anos começou a fazer as bonecas com objetivo de elevar a autoestima das crianças negras - Foto: divulgação

Ainda sobre fabricação, como o grande mercado de brinquedos tem olhado para esse tema?

Olha, eu tenho visto uma certa movimentação positiva, por exemplo, parece que a Barbie vai lançar uma linha de bonecas com vários tipos de corpo e cor de pele.  Quem sabe a indústria vai acordando aos poucos pra essa questão. Mas a verdade é que, ainda, nem 10% das bonecas são negras, pelo menos no mercado brasileiro. A revista TPM tinha feito uma pesquisa sobre isso em 2014, e continua atual. 

Parece comigo está dirigido a crianças, educadores, mediadores ou famílias?

É um documentário que fala de infância, mas não é infantil. Ele é especialmente dirigido a educadores. Acho que pode ser útil para discutir esse tema inclusive em sala de aula, e famílias.

Está previsto para ser lançado quando e onde?

O projeto foi financiado pela Fundação Joaquim Nabuco, depois de ganhar o concurso de roteiros Rucker Vieira. É parte do edital que ele seja exibido pela TV Brasil, em breve, mas ainda não temos data certa.

Além disso, ele está sendo inscrito em diversos festivais nacionais e pelo mundo, esperamos que ele rode bastante até o final do ano/começo do ano que vem. Passada essa janela dos festivais, que é a época em que ele ainda precisa ficar inédito, pretendemos fazer com que ele chegue às escolas. 

Alguma agenda de conversas com o público está prevista durante o lançamento?

Ainda não, estamos bem no começo desse processo de divulgação, mas ele é um filme pra ser discutido! Então a ideia é fazer todas as conversas possíveis, de preferência incluindo as bonequeiras. São elas as especialistas.

Monstros urbanos em “O dia que acordei diferente”

Acontece de a gente caminhar sem prestar atenção ao redor. Acontece. Costumamos fazer os mesmos caminhos de sempre enquanto pensamos na vida ou falamos ao telefone sem nem dar conta de que há várias criaturas divertidas ou surpreendentes escondidas por aí. Isso também se passava com a artista Renata Bueno, até o dia em que ela acordou diferente. “Saí andando pela rua e comecei a ver coisas que nunca tinha visto antes. Seria um sonho?”

Assim começa Monstros Urbanos, livro que ganhou nossos corações, publicado pela editora WMF Martins Fontes.

“Meus olhos me mostravam surpresas no caminho que todos os dias eu fazia. Olhava tudo como se fosse pela primeira vez. Uma cara engraçada surgiu no asfalto. Um bicho no muro descascado, um monstro formado num canto do céu. (…) Um dia acordei diferente e depois desse dia nunca mais a vida foi igual. Passei a ver o mundo com meu corpo inteiro e aproveitar a cidade para transformar o que parece fixo em móvel. Brincar de olhar para a cidade e fantasiar.”

Foram cerca de dois anos levando o bull terrier Mentex pra passear no Largo do Arouche, centro de São Paulo, e aproveitando para fotografar os monstros que apareciam em sua frente. São muitos os registros, que no livro ganham forma através da criatividade. O que Renata enxergava ela capturava, levava pro estúdio e ali tinha novas ideias, colocadas sobre a foto até que virassem histórias – como você vê nas fotos do pessoal do Hipopómatos na Lua.

De capa dura e trabalhado numa edição caprichada de 32 x 22 cm, Monstros Urbanos é uma coleção-convite a explorar o lado de fora. Tem dois textos doces e divertidos – um que abra e outro que fecha – e um miolo feito de criaturas expressivas e doidas pra se comunicar com o leitor. Algumas tomam a página dupla e até interagem entre si. Outra são mais verticais e nos preparam para a página seguinte.

Pra um público nada específico, mas sim para todos (de todas as idades) que gostam de livro, ilustração, fotografia e fantasia.